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Full text of "Laudelinas IV"

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MIL INVAND/A 


VOL. IN 4 
2021 








e EXDEDICN 
LAUDELINAS 


VOLUME 41. NÚMERO 4.20214 
ISSN 2675-6803 
SELO EDITORRAIE- MIRADA 
RECIFE - PERNAMBUCO 


EDITORA CHEFE CAPA 

Taciana Oliveira Águeda Amaral - Fotografia de 
“Desde que o Samba é Samba” 

CONSELHO EDITORIAL 

Argentina Castro T|USTRAÇ ÕES 


Liliana Ripardo Sofia Nabuco 
Taciana Oliveira 


BESICNERREDILTORIA 
Rebeca Gadelha 


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INDICE 


APRESENTAÇÃO 


RESÍDUOS 
Assionara Souza 


A LUTA DESSAS MULHERES 
NEGRAS QUE VIVEM 

EM MIM 

Thara Wells Corrêa 


[AS AUSÊNCIAS ECOAM 
EM MEUS OLHOS] 
Carmelita Zuzart 


POR UMA GRAÇA 
ALCANÇADA 
Cinthia Kriemler 


SUGESTÃO DE LEITURA: 
PRESOS QUE MENSTRUAM 
Taranda Barbosa 


TRINTA ANOS DEPOIS 
Mariana Tanelli 


OS POROS NOS OSSOS 
Nara Vidal 


11 


14 


23 


25 


7 


33 


35 


BALA DE MEL 
Silvana Guimarães 


AUTO DE NATAL 
Adriane Garcia 


Manuella Bezerra de Melo 
Fernanda Limão 


AMOR CONJUGADO 
Juliana Berlim 


FELINA 
Chris Hermann 


Déh Zabelê 


BURACO 
Michaela v. Schmaedel 


MAPA-MUNDI 
Daia Moura 


COLETIVA BARRÓSAS 


EU QUERIA ESCREVER SOBRE 


A GUERRA INTERNA 
Lais Eutália 


37 


41 


43 


45 


47 


50 


51 


53 


24 


62 


64 


Lúcia Viana 66 
Bruna Sonast 67 


TRANSFOBIA RECREATIVA: 

A CONSTRUÇÃO DO LUGAR DAS 
TRAVESTIS NO IMAGINÁRIO DA 
SOCIEDADE BRASILEIRA 
ATRAVÉS DO HUMOR 70 
Elisha Silva de Jesus 


SAUDADE 81 
Yonne Miller 


ENSAIO FOTOGRÁFICO 
DESLOCAMENTOS 
IMAGINÁRIOS, 2020 
MONTEVIDÉU, URUGUAI 85 
Camila Fontenele 


ENSAIO FOTOGRÁFICO 

MORRO E NÃO POSSO VELAR 
MEU CORPO 98 
Julia Pupim 


PARTICIPARAM DESTA 
EDIÇÃO 110 


APRESENTARAU 


Há um ano nascia Laudelinas, uma publicação desenvolvida para o fomento 
das vozes femininas na sua multiplicidade de atuação artística e social. Nesta 
edição contemplamos mais uma vez a produção de artigos, poemas, resenhas, 
contos, crônicas, ilustrações e ensaios fotográficos elaborados por mulheres cis e 
trans de todas as regiões do Brasil. 


Há um ano enfrentamos bem mais que a letalidade de um vírus e as 
consequências econômicas do isolamento social: somos uma nação destituída do 
bom senso e de empatia, governada por milicianos, abandonada pela omissão e 
cumplicidade partidária de algumas instituições. Assistimos ataques às minorias, 
a exclusão e o esfacelamento de políticas sociais e ambientais. Apesar da atitude 
negacionista de muitos, sobrevivemos ao desempenho vil de um governo genocida 
que regozija diante do caos. Se a democracia se evapora em convicções narcisistas 
e pentecostais, nós seguimos aos trancos e barrancos, defendendo nossa existência 
e as inúmeras tentativas de silenciamento e exclusão: 


Sim, eu trago o fogo, 

o outro, 

não aquele que te apraz. 
Ele queima sim, 

é chama voraz 


que derrete o bivo de teu pincel 
incendiando até ás cinzas 
O desejo-desenho que fazes de mim. 


Sim, eu trago o fogo, 

o outro, 

aquele que me faz, 

e que molda a dura pena 
de minha escrita. 

é este o fogo, 

o meu, o que me arde 

e cunha a minha face 

na letra desenho 

do auto-retrato meu. 


Este é o nosso território, nosso corpo, a caixa de memórias, o encontro da 
palavra e da imagem na construção de identidades políticas e de resistência. Em 
tempos de “achismos”, intolerância, terra plana e pandemia, viver exige coragem e 
afeto. Amar é revolucionário e a criação artística um ato necessário para vislumbrar 
a esperança. 


Avante, queridas! 


Recife, 08 de março de 2021 


Taciana Oliveira 


! Do fogo que em mim arde, Conceição Evaristo 


“Talvez, o caminho seja entrar e sair de casulos 
para pousar silenciosamente de asas abertas ”* 


? Lisiane Forte em Liames (Premius Editora, 2018) 








RESÍDUOS 


Assionara Souza 


Minha mãe morreu aos vinte e oito anos acometida de uma mudez aguda. Um 
dos piores silêncios que já baixou sobre a minha família. Desses em que a palavra 
“fica presa dentro e se multiplica agilmente. Assim como um pensamento descritivo 
minucioso. Eu via isso quando ela penteava o cabelo, aquele olho vítreo pro 
espelho, era a doença. Eu. Meu olho via o olho dela. É um sinal que a doença dá. 
Principalmente nesses momentos de início. É uma doencinha muito danada, essa. 
Afeta muito as mulheres da minha família. E não é loucura. Louca, mesmo, teve 
uma minha tia avó chamada Joana. Mas Joana falava muito. Os homens diziam 
que era ela a desvairada. Aceitou bem o diagnóstico. Tomou veneno e, antes de 
morrer, urinou-se na sala grande da casa vomitando impropérios. O demônio da 
palavra a habitava. Minha mãe começou com os silêncios dela, eu tinha oito anos. 
Os fios de cabelo que ficavam no pente, tristeza infinita em cada gesto. Mínimos. 
Ínfimos. Olhava. As mãos de dedos longos juntando cada sobra de existência. Os 
fios de cabelo quando se morre ainda permanecem. A prova inorgânica. Minha mãe 
tinha o cabelo longo e os olhos tristes e distantes. Era já a doença. Olho pensante. 
Um dia ela me deu um caderno com capa de flores. Ali, decidi. O que a doença 
deixava escapar, eu juntava. Teve uma manhã, me arrumando pra escola, ela 
disse: “estudo é uma coisa muito importante pra pessoa”. Eu sorri transbordante 
da figurinha para a coleção. Escrevi. Letras minhas. O remédio bom da palavra 
saindo dela. Cura. Minha mãe não falava nada que não significasse. Meu pai era 
diferente. “Cuidado com o carro”; “Olhe de um lado e outro”. Meu pai sempre foi 
um homem matemático; pensava muito em ficar rico. Má temática. Esquecia-se dos 
outros nessa ideia infame. E mesmo porque matemática desse modo cru, mulher 
desfaz. Minha vó, que também quando decidiu silenciar enganou todo mundo, 
matou-se no devagar do secreto, entendia muito bem de contar luas e adivinhar 
ocultos mistérios. Dela anotei: “a língua é o chicote do corpo”. Talvez pensasse 
em tia Joana, a desvairada. Porque mulher gosta muito da palavra. E quando falta, 


a doença chega. Sorrateira. Sedutora. Eu sei que há muitas maneiras de se pegar 
essa doença. Ainda mais que as mulheres da minha família têm muita facilidade 
para o silêncio. É um descuido, e pronto! Começam a parar olho demais numa 
coisa só, boca cerrada, minimalismos. A última filha que a minha mãe teve já 
veio com a doença de nascença. A primeira palavra que falou foi “não”. Minha 
avó chamou minha mãe ao lado. Só se olharam. Porque também, por mais que se 
tenha já essa coisa latente, esse silêncio aguardante, às vezes é outra palavra que 
um diz pra aquela pessoa e já finca raiz a mudez absurda. A palavra que não diz. 
Não adiantava nada meu pai falar. Trazer as coisas da rua, do mundo, grugulejar 
notícias. O silêncio da doença não aceita forma alguma palavra sem peso. Eu 
sei. Pois aquele dia mesmo. Eu ali, tanta espera o coração. Ouvi a voz. Aguardei. 
Atardescia sinfonicamente. Não era? Lembras? Eu e tu. Tantas outras vezes. Me 
ouves, agora? Pois aquela tarde tão grande e pronta pra sustentar a exata palavra. 
Por que não a disseste? É impossível às mulheres da minha família suportar a falta 
da palavra. Veio com uma força estúpida: o sintoma. Espalhou-se liquidamente o 
silêncio rascante dentro de mim. Foi por esse tempo, meus olhos desistiram de ti; 
meus braços desistiram de ti. Meu corpo todo adoeceu da ausência de teu gesto. 
Talvez aqui dentro há muito tempo venha eu tentando entender o início desse meu 
esquecimento de vontade. São de uma inutilidade tremenda as novidades que me 
trazes do mundo. A estúpida palavra pronunciada fisicamente. As mulheres de 
minha família sofrem do mal da palavra. Não há repouso em tua alma às coisas que 
eu digo. Tua palavra não me atinge. Minha mãe morreu aos vinte e oito anos de 
idade acometida de um silêncio absurdo. Somos, tu e eu, inimigos muito íntimos. 
Meu olho no espelho vê. 





Assionara Souza. Escritora, nascida em Caicó/RN, em 14 de outubro de 1969. Formada em 
Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná, foi pesquisadora da obra de Osman 
Lins (1924-1978). Autora dos volumes de contos Cecília não é um cachimbo (2005), Amanhã. 
Com sorvete! (2010), Os hábitos e os monges (2011), Na rua: a caminho do circo (2014) — 
contemplado com a Bolsa Petrobras, 2014; e Alquimista na chuva (poesia, 2017). Sua obra 
tem sido publicada no México pela editora Calygramma. Participou do coletivo Escritoras 
Suicidas. Idealizou e coordenou o projeto Translações: literatura em trânsito [antologia de 
autores paranaenses: www.literaturaemtransito.com]. Estreou na dramaturgia escrevendo a 
peça Das mulheres de antes (2016), para a Inominável Companhia de Teatro. Morreu em 21 
de maio de 2018, em Curitiba/PR. 


A 


LUTA DESSAS 


MEET ERES NEGRAS QUE 
Ed ME IM AIM 


Thara Wells Corrêa 


Era uma vez... 


No início dos anos 60, uma família 
de mulheres negras em busca de novas 
oportunidades, desembarcou na cidade de 
Sorocaba. 


Srº L, a matriarca, era uma mulher negra 
de origem humilde nascida em 1911, filha de 
pais escravos. Orgulhava-se de ser umbandista 
e benzedeira, além de profunda conhecedora 
do poder de cura das ervas. Trazia sempre 
consigo um pano branquíssimo na sacola, o 
qual tinha a função de manter imaculadas 
as suas ervas e seu terço (de um metro de 
comprimento), que ela mesma havia plantado, 
colhido as contas e furado cuidadosamente 
uma a uma. Das folhas enrolava seu cigarro 
de palha, e cada vez que soltava à fumaça, 
refletia sobre a vida e suas armadilhas. 


Sr” L. havia ficado viúva. Seu marido, 
Sr. S, era um homem negro de pele clara e 
de olhos verdes, parecia um ser encantado 
de tão alto e magro. Quando abria o sorriso, 
branco como as teclas de um piano, amolecia 


qualquer coração, inclusive o dela. Era 
mulherengo e muito encantador. Benzedeiro 
famoso e profundo conhecedor dos feitiços 
mais secretos, dos quais às vezes usava para 
despistar os maridos traídos e enfurecidos. Sr” 
L. contava que ele virava um toco de árvore 
no meio do mato quando queria fugir das 
surras, depois se gabava do feito rindo muito 
até se engasgar. Trabalhava como cortador de 
eucalipto, e num dia, numa peça do destino, um 
pé de eucalipto caiu em cima da sua barriga. 
Agonizou por horas, sozinho no meio do 
mato, até ser encontrado pelo compadre João 
segurando as suas tripas. Sr” L., agora viúva, 
sozinha e com cinco filhas ainda pequenas, 
viu que era hora de recomeçar. Sabia que 
estava vulnerável e temia pelas suas meninas. 
Contava que criou 18 filhos. Quando se casou 
como Sr.S., ele era viúvo e pai de onze filhos 
pequenos. Da união com ele, tiveram mais 
sete. Com exceção das cinco meninas, os 
restantes já estavam todos criados, cada um 
seguindo seu rumo na vida, dizia. 


O recomeço não foi fácil. Vendeu tudo 
o que tinha de mais valioso onde morava. 
Por aqui, trabalhou incansavelmente como 
lavadeira e engomadeira até conseguir comprar 
um terreninho. Continuava religiosamente de 
luto. Sr. S. ainda era presente na sua vida e 
no seu coração. Era devota de Nossa Senhora 
Aparecida. Fregiientava todas as igrejas que 
descobria. Rezava o terço todos os dias às 
seis horas da tarde e se levantava assim que o 
galo cantava para tomar seu banho de bacia, 
no quintal, ao nascer do sol. Como uma 
entidade anciã, energizava-se, contemplando 
em oração, o milagre de um novo dia. 


O Tempo passou rápido demais. As 
meninas tímidas e arriscas, tornaram-se 
lindas mulheres. Cada uma seguiu seu rumo. 
Srº L, controladora que só, temia que elas se 
“perdessem” na vida. Só sai de casa casada 
e de papel passado, dizia em tom áspero e 
com a testa franzida. A filha do meio era 
a mais obediente. Dona de olhos negros e 
brilhantes como uma jabuticaba madura, 
queria ser cozinheira famosa. Tinha dom de 
transformar poucos ingredientes em pratos 
sofisticadíssimos e saborosos. Só ela tinha 
a permissão para usar as panelas de ferro da 
mãe. Frequentava assiduamente o terreiro de 
umbanda da família. Era um doce de pessoa, 
diziam todos que a conheciam. Tímida, 
astuta e inteligente. Adorava novelas e era 
fã do Roberto Carlos. Vivia cantarolando as 
músicas dele por aí. Era feliz demais. Assim 
como nas novelas que acompanhava todos 
os dias, sonhava com seu príncipe encantado 
que, com um beijo apaixonado, lhe pedisse em 
casamento ajoelhado e lhe oferecendo flores. 
Sim! Sim! Eu aceito! Ensaiava. Às vezes, se 
via sorrindo sozinha dentro do ônibus na volta 
pra casa, depois de um dia pesado de trabalho. 


Trabalhava desde pequena como doméstica 
na casa de uma família rica da cidade. Era 
tida como da família, obedecia à patroa sem 
questionar. Do patrão, um homem fino e 
educado, tinha vergonha até da sombra. Das 
filhas, era como irmã mais velha. Embalava 
suas bonecas quando elas estavam ausentes e 
“até” ganhava as roupas que não lhes serviam 
mais. Mesmo astuta e inteligente, não tinha 
a malícia das armadilhas da sociedade em 
que vivia. 


Um dia, seu sorriso cruzou outro sorriso, 
assim sem querer, como nas novelas. Ele, 
homem branco, rico, egocêntrico, estudante 
de advocacia (na faculdade mais conceituada 
da cidade), queria ser delegado. Quantas 
coisas em comum. Sorriam e selavam com 
beijo. Os amigos dele riam e faziam piada. 
As irmãs e as amigas dela, as confidentes. As 
pedras do asfalto testemunhas dos passeios de 
mãos dadas, das confidências, dos desabafos, 
dos sonhos, do amor. Tudo seguia seu rumo 
como sonhado e planejado. Ele jurava que 
assim que se formasse e passasse no concurso 
para delegado, enfrentaria sua família de 
portugueses abastados e eles se casariam. 
Selava sua promessa com um beijo apaixonado. 


Um dia, como prometido, ele foi conhecer 
o centro de Umbanda que ela tanto comentava. 
Era dia de “gíria de Baianos e Boiadeiros”. 
Ele ficou maravilhado com o que viu. Foi até 
tomar um passe com o baiano das Pedras, 
chefe do terreiro. O baiano das Pedras era 
a entidade que todas as pessoas, médiuns 
ou não, amavam. Tinha o dom da profecia. 
O que ele falava podia escrever porque era 
“batata”. Quando ela foi, percebeu que a 
mesma entidade, a qual ela conhecia desde 
menina segurava no pulso dela com o dedo 
indicador e com o chapéu cobrindo o rosto, 


soltava a fumaça do seu charuto, calado 
num silêncio de matar. Tomou coragem e o 
interrompeu: 


“ Aconteceu alguma coisa? O que o 
senhor ta vendo? Ai meu Deus!” Exclamou 
e riu de nervoso. 


Numa retomada, ele ainda segurando a 
pulsação dela de cabeça baixa, disse: 


“ Você ainda não sabe, mas seu bacuri 
(significado de filho na linguagem da 
Umbanda), já está com você. Ele trará uma 
mediunidade de outras vidas e vai mudar 
muito a sua e tudo o que tocar. Será seu fardo 
ou seu alívio. A decisão será só sua”. Ela 
congelou da cabeça aos pés. A entidade então 
se calou, prosseguiu com a finalização dos 
rituais de passe e se despediu. Eles Ficaram 
até o final da sessão e depois foram embora. 


As palavras da entidade calaram tão 
fundo na sua alma que não conseguia pensar 
em mais nada. Ficou como se não estivesse 
mais ali. Tinha a certeza de que seu corpo 
não apresentava sinais de nada diferente, 
então seguiu com sua vida, seu namoro e 
seus sonhos. Tudo era sol na sua vida. 


Após três meses, a profecia se cumpriu. 
Desesperou-se. Confidenciou a sua irmã mais 
velha, que alertou sobre a ira da Srº L. “Meu 
Deus, ela vai me matar!” Dizia aos prantos. 
Encorajada pelas suas confidentes, decidiu 
contar pra ele. Tinha como certo que juntos 
achariam a melhor maneira de enfrentar 
essa “dádiva de Deus”. Sabia que ele ficaria 
feliz. Acreditava piamente na integridade do 
seu namorado. Tudo vai dar certo, pensava 
cruzando os dedos. 


Quando enfim se encontraram, o discurso 
já repetidamente ensaiado estava na ponta da 
língua. Suas mãos eram com barras de gelo e 
seus olhos de jabuticaba, agora eram banhados 
de orvalho de medo e incertezas. Ele percebera 
a tensão no ar, e insistente perguntou o que 
estava acontecendo. Ela, assim como nas 
cenas de novelas, disse: “Agora somos três, 
olhando pra baixo e colocando as mãos na 
barriga”. Silêncio... 


Num impulso para traz, ele solta um 
grito: “Tá louca né?! Olha o que você está 
fazendo comigo”, disse. 


Ela chorava demais com a reação dele. 
Esperava que assim como nos folhetins, 
ele acima de tudo, ficasse com ela. Era seu 
primeiro e único amor. 


Ele ainda de costas pra ela, com as mãos 
na cabeça segurando os lisos e sedosos cabelos 
negros, pensava: Isso vai acabar com a minha 
vida! 


Num rompante ele se vira, segura nas 
mãos tremulas dela e diz: “Vamos dar um 
jeito nisso. Conheço casais de amigos que já 
passaram por isso e resolveram. Arrumo o 
dinheiro para você resolver esse problema e 
voltamos ao que era antes”. 


Num rompante, como que por instinto 
e mesmo sem entender ao certo o que ele 
proporá, levanta-se, e com toda a força que 
tinha, no alto dos seus Imetro 57centímetros 
de altura, desfere uma tapa que estrala e diz: 
“Nunca mais na minha vida quero olhar na 
sua cara! Nojento”, diz. Ao sair, se vira e 
promete: “Enquanto eu viver, você nunca 
vai por os olhos nessa criança. Siga com sua 
carreira que eu vou seguir minha vida. Deus e 


meus orixás nunca vão me desamparar. Tenho 
fé”. Seguiu quase correndo. 


Como era de se imaginar, Sr” L, caiu 
como uma forte tempestade na sua vida 
expulsando-a de casa e jogando todas as suas 
coisas na rua. Agora, ela era a vergonha da 
família. Era a mãe solteira do bairro. Ela 
chorava de soluçar. Pedia perdão à mãe, mas 
em vão. 


No auge dos seus vinte e dois anos, 
sabia que tinha que continuar. Pensou por 
um instante em dar um jeito como seu amor, 
agora ex-amor prometera, mas como um sopro 
no ouvido, lembrou-se da profecia do Baiano 
das Pedras e se arrependeu imediatamente. 


Procurou abrigo no emprego, e a patroa 
gentilmente a repreendeu. Deu um sermão 
daqueles de horas, mas no final, aceitou que 
ela morasse no “porãozinho”, na lavanderia 
no meio das roupas sujas, afinal ela era como 
“uma filha” pra eles. 


Srº L, nunca mais tocou no nome dela e 
ordenou para que todos ali fizessem o mesmo, 
sendo prontamente obedecida. 


Seguiram-se os meses... Ela trabalhava 
de segunda a segunda, quase vinte e quatro 
horas por dia. Não reclamava de dor, de nada. 
Dentro do senso comum e numa época onde 
não existiam exames de ultrassonografia 
obstétrica, as pessoas adivinhavam o sexo do 
bebê pelo formato da barriga da mãe. Diziam 
com todas as letras, é menina. 


Chegou à esperada hora quando estava 
lavando roupas no tanque. Deu um grito de 
dor e foi um corre-corre danado. Para surpresa 
de todos e cumprindo a profecia, os médicos 
disseram: É um menino! 


A patroa, fina e elegante, porém já na 
terceira idade, tinha três filhas moças. Seu 
sonho e do marido sempre foi ter um menino 
e numa conversa intima com a sua “filha 
adotiva”, interrompe o momento entre mãe 
e filho e arrisca: “Dá ele pra mim? Registro 
e prometo que o criarei como um rei e você 
poderá seguir com seu sonho de ser cozinheira 
famosa....poderá casar...ter outros filhos”. 
Pestanejou por um instante, mas olhando para 
a faminta criança, disse não. 


“Na alma tenho impresso como tatuagem 
o seu cheiro de baunilha e a alegria do 
momento quando meus olhos conheceram 
os teus”. 


Quando recebeu alta médica, voltou ao 
“pordozinho” e em poucos dias já estava de 
volta ao trabalho. A criança era disputada por 
todos os colos. Era a alegria da família. 


Sr” L, sete meses depois que soube da 
notícia do nascimento do neto pela filha mais 
velha, se muniu de coragem, vencendo seu 
orgulho e todos os seus preconceitos, decidiu 
visitar a filha no emprego. Arrumou-se toda. 
Tirou o pote de pó-de-arroz da gaveta e se 
maquiou. Trançou os cabelos afros tipo 3c 
já brancos, finalizando sua produção com a 
peruca curta e lisa que ficava exibida em uma 
cabeça de isopor em cima da penteadeira. 
Afinal, era seu primeiro neto, pensava ansiosa. 
No encontro emocionante pediu perdão à 
filha e timidamente, chorou. Quando enfim 
carregou o neto de pele claríssima no colo, 
se olharam e se reconheceram. A criança 
era muito branca, para o espanto da avó, 
mas quando esta abriu o sorriso banguelo, 
a matriarca se rendeu aos seus encantos e 
se derreteu feito margarina. Chorou muito 
de felicidade e de arrependimento por suas 


atitudes. Ordenou que, imediatamente, 
mãe e filho fossem embora com ela, sendo 
prontamente obedecida e, contrariando a 
patroa, que a esta altura já havia batizado a 
criança, assim a família unida seguiu para 
casa. 


Os anos se seguiram e a criança já 
contava com seus três anos de idade e era 
quem dominava a todos na família, inclusive 
a Sr” L., que de coração gelado, agora era só 
felicidade. Mas, como tudo na vida não é só 
felicidade, os rumores da mãe solteira ainda 
persistiam na vizinhança e incomodavam 
muito a Sr? L. que decidiu arrumar um 
casamento para a filha solteira e um pai para 
dar um sobrenome ao seu neto tão amado e 
adorado, e assim o fez. 


Num desses encontros que só o destino 
é capaz de explicar, a filha caçula da Sr? L. 
começou a namorar e o irmão mais velho do 
seu namorado estava solteiro. 


Sr. B era um homem negro retinto, alto 
e bem musculoso. Viúvo recém chegado de 
São Paulo, era de uma educação que todos 
admiravam. Não tinha vícios, falava baixo e 
pausadamente. Perfumado e cheirando a leite 
de Rosas, era o partido perfeito para a filha 
desgarrada e para o neto que tinha na certidão 
de nascimento só o nome da mãe. 


Casaram-se com a benção da matriarca 
e viveram felizes um ano e meio até a notícia 
da primeira gravidez. Sr. B, para o espanto 
de todos era alcoólatra em tratamento e sabe 
se lá porque, voltou a beber. O primeiro 
empurrão veio aos três meses de gestação. 
No quinto mês após uma discussão de casal, 
o primeiro tapa na cara. Relutou, decidiu 
reagir, mas por medo de prejudicar o bebê 
que gestava, calou-se. Confidenciou sua atual 


situação aos amigos e as irmãs, contrariando 
ao que todos os amigos pensavam, não eram 
felizes. Os conselhos que recebia eram 
diversos. O mais conformador era: “Ruim 
com ele, pior sem ele”. Nasceu uma menina. 
As agressões continuaram de modo gradual 
e quase constantemente. Um ano depois, 
outra gravidez. No oitavo mês de gestação, 
após uma grave briga por conta do excesso 
de uso de álcool e outras drogas, um chute 
na barriga. Passou muito mal, quase sofreu 
um aborto. Se recuperou e aos nove meses, 
um menino saudável nasceu. A criança era a 
cópia perfeita do pai, porém, já muito afetado 
pelo vício, acusava-a sem provas de ter sido 
traído e o filho era de outro homem. Mas, que 
outro? Não existia essa possibilidade, nem 
de longe. A mente doente do Sr. B, produzia 
fatos, lugares, situações e motivos para que 
sua vida e a de sua família fosse um inferno 
total e diário. 


Interminavelmente infeliz, seguia 
resistindo sem apoio da sua família e com a 
omissão da família do Sr. B., que a culpavam 
pela ira dele e por ter provocado cada 
violência sofrida, além de acusá-la de já ser 
uma mulher “rodada” quando ele se casou. 
Seguia se arrastando e tentava não sucumbir 
a tanta tristeza e decepção. Ancorava-se nos 
filhos, aconselhava-se no terreiro que sempre 
frequentou, ouvindo atentamente a todas as 
orientações dos Orixás de que tanto amava e 
confiava. 


Já contando com três filhos, ficou grávida 
do caçula. A esta altura já estava morando 
bem longe de todos os amigos e parentes, por 
estratégia do marido violento e abusador para 
que ela não fosse influenciada a largá-lo. As 
violências seguiam cada vez mais graves. Era 
ameaçada de morte, caso decidisse se separar. 


Sr. B, neste momento já assumira seu ódio 
pelo primogênito dela que ainda conservava 
sua pele clara e no meio da família de negros 
retintos, era a prova viva de que tinha sido 
abandonada pelo homem que se entregara 
por amor. Apanhou calada muitas vezes por 
isso também. Esta criança era eu 


Eu já contava com meus sete anos, já 
estava na escola, alfabetizada e já havia 
alfabetizado a Sr L, que a esta altura contava 
com setenta e dois anos de idade. Minha 
mãe orgulhava-se de ter me ensinado a ler, 
escrever e ver as horas nos relógios analógicos 
aos cinco anos de idade. Lembro-me do dia 
em que decidi defendê-la. 


Tudo começou porque eu era como um 
papagaio dos porquês. Estava lendo o jornal 
em voz alta, e quando ele chegou bêbado, 
se implicou com aquilo e como um animal 
desgovernado, partiu pra cima de mim. 
Lembro-me como se fosse hoje quando ela 
entrou na frente dele como uma leoa para me 
defender. Foi a primeira vez que a vi fora de 
si de um jeito inesquecível. Mas a força física 
dele era muito, mas muito superior e ela levou 
a pior como sempre. Quando a vi no chão 
tentei defendê-la, mas vomitei muito e perdi 
os sentidos por um estante. A partir deste dia, 
nunca mais o vi da mesma forma, e aos nove 
anos, denunciando toda a indiferença dele 
comigo para uma tia, ela me revelou que ele 
não era meu pai. Mas quem era então?! Até 
esse momento, eu pensava que ele era meu 
pai. 


Minha mãe agora trabalhava como 
doméstica o dia todo. Decidiu trabalhar fora 
quando nos viu passando fome. Uma vez, 
quando nós estávamos chorando de fome ela, 
num ato de tamanho desespero deu as sobras 


do pouco que tinha aos filhos mais novos e 
a mim se dirigiu com o olhar marejado de 
lágrimas e disse: “Vamos cantar que a fome 
vai passar”. No auge da minha maturidade 
infantil, entendi o recado e cantamos a música 
tema da novela “Selva de Pedras” que ela 
mais amava e sempre cantarolava: Rock and 
Roll Lullaby de B.J. Thomas. Cantei com ela 
até adormecermos. 


Seu marido já consumido pelo vício, 
além de violento, gastava todo seu salário 
em bebidas. Sumia às vezes por quatro, 
cinco dias e quando aparecia, bêbado ainda 
e sem um tostão. A está altura os jornais já 
ensaiavam timidamente denunciar notícias 
sobre a violência doméstica. Na Televisão os 
programas femininos como a “TV Mulher” 
pregavam o empoderamento feminino e, 
fortalecida nisso, decidiu procurar ajuda. 


Cansada de passar noites a fio na 
delegacia, cansada de ser “humilhada” pelo 
polícia machista quando decidia fazer o 
boletim de ocorrência e depois, cansada de 
apanhar quando chegava em casa e entregava 
a intimação nas mãos do agressor, decidiu 
buscar outros caminhos. Foi orientada a ir à 
procuradoria geral do estado solicitar auxilio 
de um advogado publico e assim, conseguir 
a Separação de corpos, e mais a diante, a 
separação total. Queria recomeçar. Ser feliz 
novamente. 


A nomeação veio, era uma advogada. No 
dia e hora marcada, compareceu ao escritório 
com os quatro filhos. Ao chegar, começou 
a relatar toda a situação, e em mais uma 
dessas peças que só o destino sabe pregar, 
quando olha na mesa ao lado, fica muda e 
começa a soar frio. A advogada apresenta 
seu marido e sócio e ela ainda tremendo, 


20 


segurando-se para não desmaiar, o reconhece 
de pronto. Era ele, seu amor e decepção, pai 
do seu primogênito e culpado de todo o seu 
sofrimento. Ele, casado e bem sucedido, agora 
exercendo a advocacia, trabalhava também 
como delegado. Ele conseguiu, disse a si 
mesma. (Quando se recompôs, se levantou 
com a desculpa de que estava passando mal 
em relatar toda a violência sofrida e que outro 
dia voltaria. Ele, na hora entendeu quem era 
ela, reconheceu seu filho e por um instante 
pensou em ir atrás, porém, confortável na sua 
vida de homem branco, decidiu não arriscar 
perder seus privilégios. 


Alguns anos se passaram e ela nesta 
altura já estava separada judicialmente do seu 
agressor, mas seguiam morando debaixo do 
mesmo teto por falta de condições financeiras 
para consumar a separação de fato. Sr. B, 
agora mais velho e com os filhos já criados, 
ainda bebia muito e continuava violento e 
agressivo. 


Lembro-me de quando ela começou a 
desistir de viver. Seus olhos negros como 
jabuticabas maduras já não refletiam mais 
o mesmo brilho e ela já se encontrava bem 
obesa e debilitada devido a tanta violência. 
Desenvolvera muitas comorbidades. Seu 
corpo mal conseguia caminhar. 


A tristeza como um fogo avassalador, já 
havia tomado sua alma. Sr L e suas três irmãs 
já haviam falecido. Estava sozinha no mundo, 
lamentava. Só tinha sua irmã mais velha e seus 
quatros filhos, dos quais se orgulhava tanto, e 
arrisco a dizer que ainda se nutria, entre um 
suspiro e outro, das lembranças boas do seu 
primeiro e único amor. O primogênito nunca 
conheceu o pai e a pedido dela, também nunca 
o procurou. Dizia que eles nunca deveriam se 


encontrar, pois temia o enfrentamento. Talvez, 
sua intuição mediúnica sempre esteve certa. 


Às vezes, como num sopro de respiro, 
submergia da profunda depressão e sorria 
de algo muito engraçado que ouvia, outras 
fingia dormir o dia todo para não acordar 
para a sua triste realidade. Não cozinhava 
mais e se tentasse, não consiga acertar mais 
o ponto de nada. Com o passar dos anos, 
assim como uma flor sem água e sem sol, foi 
murchando. Não tinha esperança de mudar seu 
destino e violentada pela sociedade, machista 
e patriarcal; ignorada pela falta de políticas 
públicas de acolhimento e enfrentamento 
efetivo a violência doméstica; anulada por 
todo o racismo ainda presente na nossa atual 
sociedade; ela nos deixou há muitos anos 
atrás, em uma “manhã de setembro”. 


Todo mundo já ouviu falar ou já conheceu 
alguma menina/ mulher que foi abandonada e 
forçada a criar um filho sozinha. A sociedade 
machista legitima tal atitude covarde, 
absolvendo o homem da sua responsabilidade, 
além de excluir socialmente essa “heroína”. 


Assim como toda mulher negra e pobre, 
esta história faz parte da estatística de muitas 
outras que ainda nos dias atuais, são as que 
mais sofrem violência doméstica no Brasil. 
Elas são as maiores vítimas de homicídio e 
feminicídio. Sendo raça e o gênero fatores 
determinante para a legitimação, omissão e 
justificativa dessas violências. 


A violência contra mulher é, portanto, 
estrutural no Brasil, e tão enraizada que 
se reproduz de forma automática, natural. 
Bem debaixo dos nossos olhos, atingindo a 
todos do núcleo familiar e causando traumas 
irreparáveis, assim como os que relatei acima. 


Em tempo, não posso deixar de citar 
que o novo coronavírus (Covid-19) atingiu 
milhões de pessoas no mundo, e com ele veio 
à necessidade de isolamento, contribuindo 
para o crescimento e aumento da violência 
doméstica, sofrida por mulheres e crianças 
que passaram a conviver dia e noite com seus 
agressores. 


Por fim, mulher denuncie a violência 
doméstica. Procure ajuda, não escute conselhos 
de submissão, nem tão pouco justifique os atos 
do seu agressor (a) e jamais se anule ou se 
culpe pelas atitudes agressivas de quem quer 
que você tenha escolhido como companheiro 


(a). 


Esse relato é sobre as mulheres negras 
mais incríveis que conheci, minhas tias e 
minha avó, Srº L e a dona dos olhos de 
jabuticaba mais lindos que já vi, minha mãe, 
dona Irene. Em memória e no coração. 


Todo fim, é um recomeço. Acredite! 
Viva o Dia da Mulher! 


Viva a liberdade de ser, pensar, agir e 
viver como bem entender! 


Lugar de Mulher é aonde ela quiser. 





Thara Wells Corrêa. Mulher transgênero. 
Trans ativista, militante pelos direitos 
humanos de pessoas trans. Graduanda em 
Serviço Social. Conselheira no Conselho 
MUnicipal dos Direitos da Mulher de 
Sorocaba. Promotora Legal Popular- PLP 


21 





23 


[AS AUSÊNCIAS ECOAM 
EM MEUS OLHOS! 


Carmelita Zuzart 


tenho sustentado 

as vistas, no olho 

e há, sempre 

um bafo tépido 

toque palpitante 
sussurro, 

costurado no vento 
nas rachaduras que habitam 
os intervalos 

e 

céus, 

tá tudo tão vivo 
beligerantemente quieto 
há 

ausências tão mornas 
noites tão claras 

um pulso ecoante 
aportando as paredes 
solidões escoantes 
[habitamos] 

certa vez, 


um olhar varreu a terra 

na beira do mar, 

engoliu o sol num mergulho 
e as pedras.. rolaram as linhas 
subindo a cortina-breu 
selando 

a pálpebra do dia 

úmido, surrado 

o sol fez-se frio no fundo 

e as bolhas subiram... 
riscando a gênese 

na pele d'água 

quando [por fim] regressou 
entre os astros 

pálido, envergonhado 
então elas vieram 

dos confins do firmamento 
du coin le plus éloigné 
estrelar os varais 
sustentar o próximo pulo 
dança vem sendo verbo 


24 


[corriqueiro] 

entre caiporas e capins 
durante as sombras da lua 
até... 

em queda, desbotar 

a última aquarela 
arar-se o primeiro café 
repare, 

o céu alveja 

[sempre] 

e há 

[sempre] 

algo bonito, por lá 
então choramos 

deus, 

como não chorar? 


p4 





Carmelita Zuzart quando tinha 10 anos, 
mamãe me comprou um caderninho. En- 
tão eu me sentava no jardim e, por horas, 
condensava-me. Meses depois, ganhei um 
livro ilustrado da Cecília Meireles. Come- 
cei a decalcar os desenhos e transcrever os 
poemas em folhas de ofício e os vendia jun- 
to aos meus no colégio por um real. Assim 
paguei meus lanches por um tempo. Me 
chamo Carmelita Zuzart, sou Gravatense 
em peito e Recifense por certidão. Gradu- 
anda em História, perdi no tempo qualquer 
rastro de habilidades empreendedoras. Vez 
e outra ainda escrevo. Constantemente sin- 
to saudades daquela garota. 


POR UMA GRAÇA 
ALCANÇADA 


Cinthia Kriemler 


As mesmas de sempre. As coisas 
que acontecem com ela. Mas agora é 
diferente. Ela se cansou do sempre. 


Cansou de contar e recontar pratos 
talheres panelas garrafas bibelôs gotas 
de adoçante almofadas cadeiras rolos de 
papel higiênico latas de cerveja minutos 
portas se abrindo e se fechando com força 
tapas socos chutes cortes hematomas 
lágrimas gritos semanas meses anos. 


Cansou de contar para os filhos 
as mesmas histórias sobre deus papai 
noel coelhinho da páscoa chapeuzinho 
vermelho cinderela gato de botas 
princesas príncipes reinos encantados 
meninas e meninos felizes — seja lá o 
que for que signifique ser feliz. 


Cansou de contar para a mãe para as 
vizinhas para as amigas para a empregada 
para a professora dos filhos para as 
médicas (é invariavelmente feito só de 
mulheres o seu universo vigiado) uma 
versão Mulher-Maravilha de si mesma. 
Mas não sente remorso. Quem foi que 
disse que as melhores versões não são 
as inventadas? 


Cansada, confessou ao padre a 
verdade. Em versão única e sem revisão. 
Ele lhe pediu paciência e serenidade. 
Paciência e serenidade. Paciência e 
serenidade. Repetição que ela implantou 
em eco na cabeça. Pediu também que ela 
perdoasse. Tudo. Em troca da absolvição 
dos próprios pecados. Que pecados, 
padre?, quis perguntar. Não perguntou. 
Achou melhor não criar argumento. Ele 
insistiu nos infinitivos: relevar, esquecer, 
perdoar. E ainda teve a coragem de falar 
a ela sobre o amor. Teve essa coragem. 


Ela ficou ali, estática, do outro lado 
da treliça sebosa do confessionário 
abafado, esperando aquele homem 
autoproclamado “de Deus” dizer a 
palavra justiça. Ou a palavra respeito. 
Que nada. O que ele fez foi alinhavar a 
confissão com um clichê estúpido. “Até 
que a morte os separe, filha, lembre-se 
disso”. Acompanhado de uma penitência 
branda: um Pai-nosso e três Ave-Marias. 
Muito branda. 

Ela contou os furinhos da treliça mais 
uma vez, antes de se levantar daquele 
lugar sufocado. Rezou a penitência 


25 


26 


aos pés da estátua de Nossa Senhora 
de Fátima, repetindo mecanicamente as 
palavras. Contou as velas do altar as 
imagens dos santos os quadrados do piso 
os anjos do teto. Depois, foi embora. A 
caminho de casa, recomeçou a contagem. 
Sinais de trânsito, carros vermelhos, 
casas brancas, placas com final cinco. 


Cinco. Que número perfeito. Os 
cinco sentidos. As cinco pontas de um 
pentagrama. O número-amuleto dos 
romanos para proteger dos espíritos 
malignos — romanos espertos. 

Cinco dedos segurando o revólver 
comprado há cinco meses por cinco mil 
reais. Cinco tiros à queima-roupa no 
homem roncando sobre a cama. Cinco 
pipocos (ela sempre quis dizer pipocos). 
Contados e recontados. Contados e 
recontados. Contados e recontados. Um 
novo eco implantado na cabeça. 


Só nos Pai-nossos e nas Ave-Marias 
é que ela multiplicou o número perfeito 
por dez. 5 x 10 = 50. Rezou um rosário 
inteiro. Porque penitência não pode 
ser branda. Nem pode ser brando o 
agradecimento por uma graça alcançada. 





Cinthia Kriemler é carioca e mora 
em Brasília. Autora, pela Editora 
Patuá, de O sêmen do rinoceronte 
branco (Contos, 2020); Tudo que morde 
pede socorro (Romance, 2019); Exercício 
de leitura de mulheres loucas (Poesia, 
2018); Todos os abismos convidam para um 
mergulho (Romance, 2017) — finalista do 
Prêmio São Paulo de Literatura de 2018; Na 
escuridão não existe cor-de-rosa (Contos, 
2015) — semifinalista do Prêmio Oceanos 
2016; Sob os escombros (Contos, 2014); 
e Do todo que me cerca (Crônicas, 2012). 
Organizou a antologia de contos Novena 
para pecar em paz a convite da Editora 
Penalux, em 2017. Tem textos e poemas 
publicados em diversas antologias e em 
revistas literárias. 


SUGESTÃO DE LEITURA 





RESENHA 
PRESOS QUENMIBNS ERUOAMG 
NCBRUTAL VIDA DAS IMUERERES 


e RA E AO ud COMO O 


NAS 


PRISÕES BRASILEIRAS 


laranda barbosa 


Quando pensamos em nossas 
referências de leituras a respeito de 
prisões, as primeiras que aparecem, 
provavelmente e nesta ordem, são: 
Estação Carandiru, de Dráuzio Varela, 
Diário de um detento: o livro, de Jocenir, 
Memórias do Cárcere, de Graciliano 
Ramos, Vigiar e punir: nascimento da 
prisão, de Foucault. Todas escritas por 
homens. Todas sobre homens. 


Na contracorrente desse rio que flui 
em uma única direção está a jornalista 
Nana Queiroz, provocando redemoinhos, 
ondas e sumidouros, com a obra “Presos 
que menstruam. A brutal vida das 
mulheres — tratadas como homens — nas 
prisões brasileiras”. O livro, publicado 
em 2015, inicia com um prefácio que 


já parte para o enfrentamento e para a 
reflexão sobre o silenciamento tanto 
das bibliotecas quanto das produções 
televisivas e cinematográficas sobre as 
mulheres nas prisões. A crítica inicial de 
Nana Queiroz é extremamente válida e 
atual, pois escassas ainda são as obras e 
pesquisas que se dedicam a elas e, embora 
tenhamos uma vasta gama de séries cuja 
trama é desenvolvida em penitenciárias 
femininas, as produções apresentam 
cenários que estão longe da realidade 
e mulheres encarceradas aparecem, 
portanto, como meio de entretenimento 
e diversão. Logo, o que poderia ser 
um suporte para levar o expectador à 
reflexão sobre a problemática torna-se 


27 


28 


um instrumento a mais de objetificação 
feminina. 


As estratégias utilizadas por Nana 
Queiroz para compor a obra refletem 
bem a invisibilização que o patriarcado 
tenta impor sobre a figura da mulher, pois 
a jornalista, em diversos presídios, fora 
impedida de levar gravadores ou qualquer 
equipamento eletrônico de registro. 
Entretanto, da mesma maneira que 
desenvolvemos artifícios para seguirmos 
adiante, a autora conseguiu entrevistar 
as detentas e construir o livro a partir 
dos depoimentos que foram assimilados 
através de fragmentos que se uniram e 
formaram o tecido narrativo costurado 
pelos fios da memória da autora. Um 
tecido cheio de remendos alinhavados 
por papéis clandestinos escondidos nos 
bolsos. A tessitura ganha mais corpo 
quando a autora retoma algumas histórias 
no meio do livro ou no final, como uma 
perspectiva de recomeço, um modo de 
dizer que as narrativas não acabaram ou, 
ainda, que a realidade daquelas mulheres 
permanece a mesma. 


O livro-reportagem traz em seu 
título diversos elementos para a reflexão: 
o substantivo masculino “presos” 
formando o contraponto com o verbo 
“menstruam”; o adjetivo “brutal” 
associado a “vida”, indicando o longo 
tempo no qual as mulheres permanecem 
naquele lugar; o aposto posicionado e 
destacado entre hífens, chamando a 


atenção e exigindo uma pausa um pouco 
mais longa; e o complemento que indica 
a dimensão da pesquisa: acontece em 
nosso país. O aposto diz “— tratadas 
como homens —? e no decorrer da leitura 
comprovamos a força desse trecho ao 
percebemos que, mesmo dentro da 
prisão, permanecem a preocupação com 
os filhos, com a família, a dupla jornada 
e a coragem que ferve nas veias diante 
do enfrentamento: 


[...] ao contrário dos presos 
homens, as mulheres não se escondem 
quando a tropa de choque invade o 
presídio, mas xingam os policiais, 
jogam neles objetos e as mais corajosas 
chegam até a se atirar sobre eles. 


— Prefiro mil vezes uma cadeia 
com 30 mil homens do que uma com 
cem mulheres — diz ela [a diretora 
de um dos presídios], enfatizando as 
palavras para que sejam levadas a 
sério. — Elas são muito indisciplinadas, 
arrogantes e não têm medo de nada. 
Apesar da tropa de choque ser tão 
agressiva com elas quanto com eles, 
elas não se acovardam. Acho que a 
mulher é mais corajosa que o homem 
em todos os sentidos, ela enfrenta 
qualquer problema, qualquer desafio, 
acho que está habituada a fazer isso 
fora da cadeia. 


NANA 
QUEIROZ 





Imagem: Divulgação 


A capa é um recurso semiótico que 
complementa o que o leitor acabou de 
decifrar: apoiadas em uma barra de ferro, 
duas mãos exibem unhas pintadas com 
um esmalte azul opaco, descascando. 


As situações-limite, o tratamento 
desumano, os crimes confessos, a 
mea culpa, a vulnerabilidade social, a 
carência afetiva, a burocracia, a lentidão 
da justiça, o HIV, a gravidez, o parto, 
o puerpério, as renúncias pessoais, 
a solidão, os dados, as estatísticas, 
a saúde física e mental, os sonhos, a 
padronização e a “Institucionalização 
das presas” são algumas das inúmeras 


a 


discussões que Nana Queiroz traz à 


ordem do dia para que essas mulheres 
deixem de ser ignoradas pela sociedade 
e para que muitos estereótipos sejam 
rompidos. Nesse sentido, “Presos que 
menstruam?” está longe de ser uma obra 
panfletária ou apelativa, pois o discurso 
vitimista inexiste — haja vista o fato, 
inclusive, de que a autora consultou, 
após as entrevistas, para evitar pré- 
-julgamento ou tendência, o processo 
de algumas detentas e comparou com os 
depoimentos já recolhidos. 


Por outro lado, é impossível evitar 
a influência do ambiente na construção 
das narrativas apresentadas por Nana 
Queiroz em formato de capítulos curtos. 
As descrições do cenário incluem os 
cinco sentidos que nos são apresentados 
através de cheiros, sensações, ruídos 
e sinestesias. As palavras da autora 
se misturam com as das personagens, 
apresentadas ora com pseudônimos ora 
com nomes reais (protagonistas de crimes 
hediondos e de grande repercussão 
nacional). Tal recurso, associado às 
variações linguísticas — a fim de marcar 
a pluralidade, já que a autora visitou 
diversos presídios pelo país — aproxima 
“Presos que menstruam” de um livro de 
contos cujo protagonismo é de mulheres 
em situação de cárcere. 


A jornalista usa diversas técnicas 
narrativas, entre elas o in media res, a 
falsa terceira pessoa do singular e a voz 
narrativa híbrida. Esses recursos deixam 


29 


30 





ARtonitp É pido 
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Imagem: http://atribunanaweb.com.br/noticia/descubra-como-e-a-vida-das-mulheres-nas-penitenciarias-brasileiras 























o leitor na dúvida entre uma ficção 
diabolicamente real ou uma realidade 
diabolicamente digna de ficção. ' Andando 
pelas carnes”, por exemplo, é um capítulo 
que nos faz lembrar bastante Muribeca, 
de Marcelino Freire, e nos impele a 
refletir sobre até que ponto a realidade e 
a ficção se misturam e se separam. Onde 
a linha tênue entre ficção e realidade 
é atravessada?, pois as narrativas são 
absurdamente reais e de realidade 
absurda. Ademais, Nana Queiroz deixa 
explícita as suas referências e influências 
literárias, ao apresentar um capítulo em 
forma de poema e ao criar títulos como: 

















* Amor em espaços de cólera” e “A hora 
da estrela de Vânia”. 


“Presos que menstruam” é um livro 
imprescindível para que conheçamos 
e compreendamos realidades outras. 
Mães, filhas, estudantes, estrangeiras, 
brasiguaias, indígenas, ricas, pobres... 
todas nós somos passíveis de estar na 
mesma situação que aquelas detentas — 
devido a uma decisão errada, um passo 
mal dado, um instante de fúria, um vacilo 
—, habitando uma estrutura pensada 
ou construída para/por homens e que, 
quando voltada para as mulheres estava 


destinada para aquelas consideradas 
“desajustadas”. 


As inquietações afloram no fim dos 
capítulos e nos incomodam após cada 
virada de página: 


— Eu, por exemplo, estava 
grávida. Perdi meu filho faz dez 
dias, sangrei feito porco e ninguém 
fez nada, não vi um médico. Agora, 
tô aqui cheia de febres. Vai ver o 
corpinho tá apodrecendo dentro de 
mim. 


Atualmente as detentas são chamadas 
de reeducandas, uma mudança lexical 
interessante e até mesmo bonita, mas, 
com base no depoimento acima, qual 
a possibilidade de reeducação dessa 
mulher? Existe ressocialização para 
quem não foi socializada? 


A leitura nos coloca em meio a 
dilemas: qual o conceito de verdade, 
justiça, injustiça, direito, inocência, 
culpa? As diferenças de gênero saltam 
aos olhos quando nos perguntamos: 
A visita íntima é um direito, mas é, e 
deve ser, respeitada? Independente 
das respostas, compreendemos que 
“Presos que menstruam” é um livro sem 
julgamentos, afinal, aquelas mulheres 
já foram moral e socialmente julgadas, 
condenadas e, várias, executadas. Obra 


imensamente significativa e rica, esse 
livro que precisa estar ao alcance de 
todos e, tal qual as situações expostas, 
não pode ser ignorado. 


Nana Queiroz rompe com o 
silenciamento dessas mulheres, 
retirando-as da invisibilidade. O 
estudo e a divulgação dessa obra são 
imprescindíveis para que a população 
enxergue as presidiárias enquanto seres 
humanos e para que mudanças sociais 
sejam realmente executadas a fim de 
tornar obsoletas as palavras de Foucault, 
em Vigiar e Punir, ao afirmar que: 


[...] o papel da prisão é ser uma 
garantia sobre a pessoa e sobre seu 
corpo [neste caso o feminino]. A 
prisão assegura que temos alguém, 
não o pune; e, mais que claro, não 
ressocializa [...] O ciclo está fechado: 
da tortura à execução, o corpo [da 
mulher] produziu e reproduziu a 
verdade do crime. 


SI 


32 








Nana Queiroz é meio paulistana, meio brasiliense, autora de 
Você já é feminista: abra este livro e descubra o porquê. É 
bacharel em jornalismo pela USP, especialista em Relações 
Internacionais pela UnB e em direitos das mulheres 
por necessidade vital. Também é criadora do protesto 
*NdomereçoSerEstuprada e fundadora da revista AzMina, 
referência em jornalismo feminista no Brasil. Em 2017, 
liderou a equipe premiada com o Troféu Mulher Imprensa 
de Melhor Projeto Jornalístico. 


Iaranda Barbosa, formada em Letras Português-Espanhol, pela 


- UFPE, possui mestrado e doutorado em Teoria da Literatura 


pela mesma instituição. Salomé (Selo Mirada), novela histórica 
é sua primeira obra ficcional longa. A autora possui contos 
em antologias e revistas de arte, assim como diversos artigos 
científicos publicados em periódicos especializados em crítica 


| literária. 


TRINTA ANOS DEPOIS 


Mariana lanelli 


A Luna, você se lembra da Luna? 
A gata de raça pura, olho azul celeste, 
filhote de gatos medalhados em concurso 
de beleza, a gatinha perfeita, escolhida 
a dedo. Você e a mãe foram buscá-la 
uma tarde. Era para ser sua, como numa 
boba fábula cor-de-rosa, não tivesse a 
bichana se empoleirado no ombro da 
mãe, já dentro do carro, se enroscando 
nos cabelos dela. 


A mãe tentou fazer a ponte, mas 
não havia maneira, a gata havia feito a 
própria escolha. Foi então que começou 
dentro de casa uma tortura surda. A gata 
passava na sua frente, você enxotava o 
bicho como se fosse um rato, com um 
susto. 


Luna cresceu debaixo desse pesadelo, 
nem dormir tranquilamente ela dormia, 
por causa de você ela se arrastava pela 
sombra, serpeando, fugindo da sua troça 
mórbida, se escondendo dos seus passos, 
até que se tornou paranoica, se metia em 
gavetas estreitíssimas, vivia dentro do 
forro do sofá, só alta madrugada saía para 
comer. Mesmo as outras gatas da casa 


a ignoravam, incomodadas com aquela 
criatura estranha em tudo, de pelos tão 
longos e brancos, tão completamente 
louca e tão bonita. Era como se apenas 
por descuido ela se deixasse encontrar, 
já com um tremor constante enxertado 
nela. Mais intuíamos sua presença que 
outra coisa, e se de repente, por azar, nos 
cruzássemos sem querer, o melhor que 
podíamos fazer pela gata era fingir que 
não a estávamos vendo. 


Quando mudamos para outra casa e 
você já não morava conosco, Luna não 
tinha mais nada daquele belo exemplar 
de Sagrado da Birmânia, era um bicho 
magro, encardido de viver debaixo de 
um deque no quintal, os olhos de um 
azul desbotado, uma mancha selvagem 
que aparecia e desaparecia pelos cantos, 
um fantasma de gato. 


Um dia, uma velha bate à nossa porta, 
muito educada e sorridente compensando 
a economia de palavras, era a vizinha de 
mudança para o interior. Descobrimos 
aí que Luna tinha uma segunda casa e 
a mulher vinha nos perguntar se podia 


33 


34 


levar a gata com ela. A mãe consentiu, 
talvez um pouco emocionada, já não me 
lembro. 


Luna viajou sabe lá para onde, com 
sua nova dona, muito possivelmente 
ganhou outro nome, talvez tenha até se 
curado do pavor antigo e recuperado os 
belos olhos. O contentamento dessa gata 
quando ela se viu livre, longe de nós. 
O gozo de caminhar sem ter de rastejar 
pelos cantos, o gozo de deitar ao sol e 
dormir sem sobressaltos, tudo de pouco 
em pouco, como cabe a um sobrevivente, 
até estar reabilitada para a vida de novo. 
Uma outra Luna, feliz, gorda, amada. 


Gosto de imaginar que isso tenha 
sido possível, que o amor tenha realizado 
sua parte nessa história, aquela espécie 
de amor não planejado, vindo não se 
sabe de onde, que pega no corpo como 
uma planta pega na terra, surpresa não 
só para quem é amado, mas também para 
quem ama sem ter esperado por isso. 


Veja você onde desembocamos. 
Podia ter pinçado outra lembrança, entre 
as que vêm sem muito esforço, mas então 
agora você não iria se lembrar da Luna, 
e o que eu queria, no fim das contas, era 
que você se lembrasse dela, que pensasse 
na gata feliz em que ela se transformou 
depois que se esqueceu de você. 





! ' 
E 
Es 


Mariana Ianelli nasceu em São Paulo em 
1979. É autora de nove livros de poesia, 
entre eles, Fazer silêncio (2005), O amor e 
depois (2012) e Canções Meninas (2019). 
Tem dois livros de crônicas: Breves 
anotações sobre um tigre (2013) e Entre 
imagens para guardar (2017). Estreou na 
literatura infantil em 2018 com o livro 
Bichos da noite. Escreve quinzenalmente 
aos sábados na revista digital de crônicas 
Rubem. É curadora da página Poesia 
Brasileira do jornal Rascunho. 


OS POROS NOS 0550S 


Nara Vidal 


Antes de começar a escrevê-la 
na minha cabeça e, eventualmente no 
papel, ela já me rondava. O espectro 
sentido num peso insuportável através 
de fotografias, memórias, indizíveis 
verdades, Vazio. 


Minha vó, uma vez, me contou 
assim que quando criança, conversava 
com uma preta da fazenda dos pais dela. 
A preta tinha nome? Não se lembra. O 
que ficou foi só o dia que, presa num 
curral por desobediência, esticou as 
mãos para fora para segurar a minha 
avó. As mãos acorrentadas. A lei Aurea 
já tinha sido proclamada. Ainda assim, 
a mulher de correntes estava de castigo 
no curral e essa história chegou a mim 
por quem a testemunhou. Quem sofreu 
o caso que contou minha avó não disse 
nada. O que sei e o que vejo é o que viu 
a vó, do lado de fora do curral. Do lado 
de dentro, suja de esterco, mãos presas, 
moscas varejeiras cutucando a pele 
maltratada, a mulher não nos contou 
nada. Será que tinha língua? 


Uma vez, na casa dos meus pais, 
abri uma caixa e lá encontrei Francisca e 
Carolina. Um papel grosso, esverdeado, 
caligrafia caprichada dizia que as duas 
tinham sido vendidas. Seus dentes e 
seus outros ossos eram fortes, eram 
novas, eram negras. Foram vendidas 
para o Capitão Elói Mendes que em 1888 
recebeu o título de Barão de Varginha. 
Hoje, ele, não a Francisca ou a Carolina, 
é nome de cidade. 


Quando eu morava no Rio e fazia 
Faculdade de Letras, meu pai, diretor 
do ginásio, organizou uma excursão até 
o Forte de Copacabana. A oitava série 
feita de meninos e meninas de 15 anos 
foi em peso. No caminho para o Forte, 
o ônibus parou na orla de Copacabana 
para que eu desse um abraço no meu 
pai, rara ocasião de visita. Um aluno 
desceu correndo do ônibus. Ele era 
negro, calçava chinelos que destoavam 
dos tênis da garotada. Quando ele disse 
que engolia o choro porque via o mar 
pela primeira vez, os colegas riram e 


35 


36 


o chamaram de jeca. Pensei que eu já 
não me lembrava da primeira vez que 
tinha visto o mar. Era compromisso 
anual em Marataízes ou Guarapari. Um 
mineiro que já não se lembra quando 
viu o mar pela primeira vez teve lá seus 
privilégios, ainda que em prestações e 
sacrifícios. 

Na escola, meninos e meninas 
sem sapatos, traziam nos seus cabelos 
crespos e nos seus cadernos porções 
amarelas do poeirão da estrada rural 
de Guarani percorrida diariamente. 
Exaustos, eram mandados para o fundo 
da sala onde eram esquecidos por todos 
e podiam dormir. Sempre repetiam 
de ano porque preguiçosos, diziam os 
educadores, dormiam durante a aula. 

Na Inglaterra, visitei uma feira de 
quinquilharias. Notei um quadro de 
uma princesa. Ela usava um turbante 
lindo, brincos pesados e dourados, 
estava de perfil e olhava para baixo. A 
pele era escura. Eu a reconheci: ela era 
os meninos do fundo da sala de aula, 
O rapaz que virou chacota porque viu 
o mar aos quinze anos, a mulher de 
correntes nos punhos, a Francisca, a 
Carolina. Era o fantasma, essa carga, 
esse peso, essa humilhação, um país. 


Se chamaria Mariava” e entraria em 
um livro que eu escreveria. Sua história 
seria uma narrativa de lacunas, de 
incômodo nunca satisfeito, com seu 
caminho apagado e seus olhos cegos. 


Silêncio. 





Nara Vidal é mineira de Guarani. É autora 
de Sorte (Prêmio Oceanos 2019) e Mapas 
para desparecer. Mora na Inglaterra. 








* Mariava virou uma das personagens do meu romance Sorte, publicado em 2018 pela 
Editora Moinhos e que foi traduzido e publicado na Holanda. 


37 


3 AA) [a IM Ea 


Silvana Guimarães 


... e eis que tudo era vaidade e aflição de espírito. 
eclesiastes 1:14 


2416 


112 quilos de botox, dezessete litros e meio de silicone, 
16 dentes na vagina — ácidos hialurônico e retinoico, 
hidroxiapatita de cálcio, polimetilmetacrilato, próteses, 


transplantes, implantes: perdi a conta —, 439 anos depois 


2458 


seis títulos de miss universo(s) 
linda jovem gostosa desejada 
aos 444 anos ninguém me dá 


mais do que delirantes 220 


2425 


38 


dou mais do que mudo de roupa 


2363 


minhas tetas musicais fazem sucesso 
no faceback: a qualquer apalpadela alheia 
espalham seu som estereofônico por aí 


enrubescem e fazem prostrar todas as galáxias 
a preferência comum entre os machos: 

la cumparsita em ritmo acelerado 

2365 

cortaram a última árvore da terra 

mataram o último voo do pássaro 
amordaçaram a última lira 


e não há nada de novo sob o sol 


o solo sol: acabou-se a mágica 


2366 


os vínculos telepáticos 
destruíram por fim a linguagem 
ninguém precisa mais da palavra 


menos eu, que invento uma 


e sofro dela: so-li-du-me 


2040 


nostalgia de auroras bem-te-vis arco-íris 
as montanhas da minha cidade 

pão de queijo arroz com pequi 

aquele vestido de veludo grená 


sentir a alegria de minha avó canhota quando 


tocava bandolim ou recebia uma carta 


2038 


meu sangue pela beleza eterna 


dois faróis amarelos esverdinhando-se 


39 


40 


a febre nos olhos de açude 


— é assim que ele goza — 


em troca, fui condenada à vida 


2037 


não reparei nos dentes caninos 
nem nas faíscas que seus olhares 


jorravam sobre a minha jugular 


SÓ nos sussurros roucos [quando 


gemer ainda era permitido] 


24/1 


nunca 
nunca mesmo 

aceite doces de uma 
pessoa estranha 





Silvana Guimarães vive nas alturas. 
Monja eremita, em 2517 foi esquecida no 
mais elevado monastério de Meteora, na 
Grécia, onde é assistente de enfermagem. 
Especialista em febre. Garimpa tempestades, 
fala sozinha, lava gatos, caça palavras. Seu 
livro de poesia — O corpo inútil — está 
no prelo. 


41 


ADTO DE NATAL 


Adriane Carcia 


Ave-Maria cheia de Graça 

O Senhor é convosco 

Qual matrioskas nasceu Maria 
De Maria de Maria de Maria 
Das galés 


De parteiras 

De Marias 

Maria solta um berro 
De bezerro que bebia 
Mais leite do que Maria 


Ave! Nasceu! 

Na luz anônima de março 
Sem estrela 

Maria 

É de pesado astro 


Galinhas, pintinhos 

Vaca, boi, pinheiro 

Não é dezembro e os reis 
Magos, magros 

São os tempos 


Maria envolta em andrajos 
Manta puída, mãe de vento 
Vai para o colo de outra 

E outra e outra: 

Matrioskas 


Maria longe do peito 
Maria fazendo escala 
Maria Belém fugindo 
Herodes com seu buraco 
Fome, fomes, Maria 
Maria, a mãe, onde está? 


Nem ouro, incenso ou mirra 
Nem mesmo um boi-bumbá 
Estrelado somente o dia 

A secar Maria, a secar 

À noite Maria molha 

O colchão e os modos 

De olhar 


Maria mijona 
Maria chorona 


42 


Maria, incômodo mar 

Ave! Um anjo, Maria 

Não tarda a vir consolar 

(e Maria monta um presépio 
bota um menino no altar) 


Maria crescendo quer dar à luz 
Um homem 

Mas no escuro vem 

Maria 

De Maria de Maria de Maria 
De Maria 

Das galés. 





Adriane Garcia, poeta, nascida e residente 
em Belo Horizonte. Publicou Fábulas para 
adulto perder o sono (Prêmio Paraná de 
Literatura 2013, ed. Biblioteca do Paraná), 
O nome do mundo (ed. Armazém da Cultura, 
2014), Só, com peixes (ed. Confraria do 
Vento, 2015), Embrulhado para viagem (col. 
Leve um Livro, 2016), Garrafas ao mar (ed. 
Penalux, 2018), Arraial do Curral del Rei— a 
desmemória dos bois (ed. Conceito Editorial, 
2019) e Eva-proto-poeta, ed. Caos & Letras, 
2020 


Manuella Bezerra de Melo 


esperar um anjo com sua trombeta 
esperar cuspir as pérolas antes de engolir 
os rubis na areia 

a areia em cascalhos 

os pés sujos de piche 

o piche sujo de cobiça 

as pérolas cagadas dos porcos 


esperar uma noite bonita 

um momento sublime 

a luz ideal de velas 

do lustre 

do sorriso do gato 

do breu 

do silêncio que precede a dor 


esperar que cresça o filho 
um ano tem 365 dias 

um fi lho viverá muitos anos 
até que você volte a dormir 
uma noite parcial 

nunca mais voltará 

nunca mais voltará a dormir 


esperar pelo verão 

três estações inteiras 

um terço de um ano 

folhas secas animais mortos 


pelos de gato nas almofadas 


43 


adubo aduba tudo 
tudo morreu até você 


esperar que cresça o cabelo 

os fi os do cabelo precisam do sol do verão 
não crescem porque são cortados 

são cortados porque não crescem 
queria-os longos mas os corto 

como corto minha língua 

minhas asas e meus punhos” 


Manuella Bezerra de Melo é recifense, autora de Pés Peque- 
nos pra Tanto Corpo (Urutau, 2019) e Pra que roam os cães 
nessa hecatombe (Macabéa, 2020), tem mestrado em Teoria da 
Literatura e atualmente cursa o Doutoramento em Modernida- 
des Comparadas: Literaturas, Artes e Culturas na Universidade 
do Minho, em Portugal, onde reside. 





* Poema extraído do livro Para que roam os cães nessa hecatombe (Macabea, 2020). 


45 


Fernanda Limão 


É chegada a hora de fazer limpezas 
Na casa, na mente, no corpo 

No baú de lembranças empoeiradas 
Nas novas práticas cotidianas 

Nos setores abandonados de afagos 
Nos canais abertos 

Que sempre estiveram fora do ar 


É preciso espanar os enfeites inúteis das estantes 

E estender nos varais os lençóis mofados dos afetos 

É urgente percorrer as veredas do interior 

E conhecer vales profundos 

Há que se capinar os campos inférteis 

Adubar a terra para que o novo floresça 

E oferecer margaridas a quem se perde entre as campinas 


É preciso entender de sementes 
E cultivar cada uma em seu território 


Não se sabe quem disse que existem ervas daninhas 
Se os danos não vem das raízes 


É necessário agora pousar os pés 
em terras férteis 
E plantar novas estradas 


46 


Abrir caminhos na aspereza das pedras 
E acomodá-las em outros lugares 


Outras estações virão 

E as folhas secas do outono ainda estarão lá 
E será preciso juntá-las até surgirem 

novos espaços para caminhar 


Caminharemos muito para desbravar novos tempos 





Fernanda Limão é poeta, professora e produtora cultural. 
Natural de São Paulo, vive em Garanhuns desde o ano 2000. 
Tem poemas publicados em diversas antologias impressas e 
digitais desde 2010. Em 2018 lançou seu primeiro livro autoral 
Olhos de nuvem, pelo selo cartonero Severina Catadora. 


LSMOR CONJUGADO 


Juliana Berlim 


Rio de Janeiro, 05 de abril de 2020 
Meu amor, 


Eu não sei se isto é a última carta que irei lhe escrever, mesmo sendo pouco 
mais do que a primeira. Escrever cartas é um hábito em desuso, e a velocidade 
dos e-mails tornaram as pessoas preguiçosas para a expressão escrita intimista, 
preferindo neste caso a troca interpessoal. Eu, de minha parte, sempre achei que 
o ato de escrever uma carta de amor não era só ridículo, mas, a repetir o mesmo 
bardo, uma atividade inalienável dos caminhos do amor, porque só quem não 
escreve cartas de amor é realmente uma pessoa ridícula. Sei que você não gosta 
de ler poesia e só se preocupa com música, mas Fernando Pessoa faz bem para a 
pele e para a alma de qualquer vivente, ainda que, nos dizeres de António Lobo 
Antunes, Pessoa fosse pouco confiável por não fazer sexo. Com ou sem sexo, faça 
como a maioria das pessoas sensatas e leia Pessoa. Aproveite e leia Shakespeare 
também, mais sensato ainda. 


Eu me perdi. É a falta de costume, perdoa, amor. Estou desacostumada a 
escrever cartas românticas que não sejam despedidas. Nesta eu não chego a me 
despedir de você, mas chego ao ponto a que quero chegar, que é conversar sobre 
nosso afastamento. Só mesmo uma carta para me dar coragem de dizer o que 
quero dizer faz tempo. É isso um fim? Não sei dizer. Só sei dizer que preciso de 
espaço. Espaço espiritual, sem dúvida, mas espaço físico incluído. Preciso do 
meu próprio quarto, da minha própria cozinha, do meu próprio banheiro, preciso 
conseguir demorar no banho sem me preocupar se você chaga a qualquer momento 
para me interromper. Preciso de uma banheira, que você se recusa a comprar para 
nossa casa. Preciso escrever sem ouvir as músicas do Dylan ou Hendrix no último 


47 


48 


volume, ou sem seus amigos de banda bagunçando toda a sala, colocando os pés 
sobre minhas almofadas e pondo lata de cerveja sobre minha cômoda. Preciso 
cozinhar a comida sem ninguém controlando o uso do óleo ou reclamando de eu 
estar preparando uma comida balanceada, até porque você é o único namorado da 
face da Terra que reclama de eu cozinhar comida saudável, sondei minhas amigas 
e os namorados delas reclamam que elas não cozinham! Na minha opinião, se nos 
afastarmos, até nosso sexo, que continua incrível mesmo depois de intensos três 
anos, vai se beneficiar. 


Visitei uns apartamentos que coubessem no meu orçamento e, apesar de 
morarmos em um bairro meio caro (escolha sua, para ficar perto da sua mãe), 
adivinha só, achei um conjugado todo mobiliado pela metade do preço do nosso 
aluguel. Onde, você vai me perguntar? No nosso prédio! Vagou há alguns dias, 
a antiga inquilina ganhou uma bolsa de estudos do governo francês e precisa se 
mudar com urgência. Como ela está precisando fazer tudo com muita pressa, 
falou que segura o apartamento até depois de amanhã e nem me pediu caução, 
por sermos vizinhas e ela nos conhecer. Lembra dela, a moça branca do cabelo 
azul, que a gente dizia ser igual à menina daquele filme que vimos, por acaso um 
filme francês? Como eu ri de todas essas coincidências, até lésbica ela é, está se 
mudando pra Europa com a namorada coroa. Ah, você não deve estar rindo. Se 
estivéssemos juntos e eu te contasse esta história, você não riria. Você só riria se 
fosse uma piada amarga de uma letra do Dylan. Você só ri de coisas que não são 
facilmente engraçadas. 


Então, meu amor, esta é minha carta de despedida. Do nosso relacionamento? 
Não, da nossa convivência mútua. Se você vai conseguir pagar o aluguel e o 
condomínio sozinho? Agora é com você e com algum dos seus amigos, que você 
dizia serem mais fáceis de conviver do que comigo. Se eles vão querer dividir 
a conta com você? Esta é a pergunta que você deve se fazer agora, porque vou 
fechar o negócio com a doidinha do conjugado amanhã mesmo. Nos próximos dias, 
vou tirar minhas coisas da nossa casa, melhor, da nossa ex-casa. É nosso fim? Só 
espero que seja um tempo de descanso, para que possamos voltar mais fortes do 
que nunca. Será a última coisa que vou te escrever? Sabe, eu não (..) 


Da sempre sua... 





Juliana Berlim é professora de Língua Portuguesa e Literatura do Colégio Pedro II. Como 
escritora, tem textos publicados em diversas publicações no Brasil e no exterior. Coordena o 
clube de leitura escolar Neuromancers ((Dneuromancersclubede), especializado em literatura 
fantástica. Co-organizou Transliteraturas (Oficina Editora). Participa de e organiza antologias 
de literatura fantástica. 


49 


E PEA 


Chris Hermann 


com olhos faiscantes 


e lábios de mel infinitamente 


enquanto dure... 


ela o fascina 

você a beija Ê 

e a sussurra a não descoberta que: 
doçuras as suas mãos 


não passam de patas, 
embaixo da sua cama 
há outras gatas, 

por detrás das suas 
falas de amor 

só havia garganta 


com manto de fogo 
e corpo ardente 

ela o arranha 
vocês se assanham 


envoltos por labaredas 
vocês se incendeiam 
gritam e se gozam 


então ela o deixará, 
continuará gata 
e você, anta 


é Chris Hermann é escritora/poeta, musicista, editora, tradutora, 
i webdesigner carioca, radicada na Alemanha desde 1996. No Bra- 
sil, estudou Literatura, Música e Webdesign. É pós-graduada em 
Musikgeragogik na Alemanha. Organizou e participou de diversas 
“antologias de poesia no Brasil e no exterior. É autora dos livros de 
poesia: Gota a Gota (Scenarium, 2016), Cara de Lua (Sangre Edi- 
torial / Mulheres Emergentes, 2019), dos romances Borboleta — a 
menina que lia poesia, (Patuá, 2018) e Peccatum (Arribaçã, 2020), 





É editora da Revista Ser MulherArte. www.christinaherrmann.com | www.sermulherarte. 
com |http://anchor.fm/podsermulherarte 


Déh Zabelêé 


Os dias dilatam no trânsito da rotina 
Amálgama de amor e de cansaço 
Cruzam-se sonhos, desejos e laços 
Resgatando aos poucos o fôlego da vida 


Mãe! 


Som vindo do sono e ainda dormido grita 
Na escuridão do quarto de imediato a mulher abarca 
A poesia transforma-se em efetiva dádiva 
Onde falta tempo para escolher palavras 
Onde vicissitude e presença se confundem 
E o que fui já não me pertence 

Sou outra desde que fui morada 

As gotas dos meus seios te livram 

O mal do tempo não te pega 

O sopro que mora na minha cabeça 

Está suspenso no bafo quente do céu 
Ajalá, que eu chova para ser eu 


52 





Déh Zabelê [Débora Ramos] é natural de Garanhuns/PE e cidadã do mundo. Transita 
em diferentes esferas da arte: artes cênicas, literatura, fotografia e música. É cantautora e 
intérprete de inquietações silenciosas, poetisa, performadora, intérprete-pesquisadora em 
Dança. Atuou no Teatro do Oprimido Berlim no grupo feminista “Madalenas” dirigido 
por Bárbara Santos e pesquisa e repercute ritmos afro-brasileiros desde 2013. É produtora 
cultural, capoeira, mãe de Zúli Ramos e formanda do Bacharelado Interdisciplinar em 
Cultura, Linguagens e Tecnologias Aplicadas na UFRB/CECULT. É pesquisadora e 
integrante do grupo de pesquisa LEEA — Laboratório de Etnomusicologia, Antropologia 
e Audiovisual da UFRB. 


53 


BORACO 


Michaela v. tchmaedel 


É de um jardim inesperado Enquanto isso 
nesta área semidevastada tento manter o amor 
que volta-se a ter fé no amor. escondido num buraco 


protegido das aves de rapina 
A batalha é grega 
perdida entre a beleza o amor numa toca de tatu. 
e a força. 


Rolos de feno secam 
nos campos americanos 
um infeliz escreve 

jesus te ama 

com o arado. 


Michaela v. Schmaedel (1976) é jornalista de cultura, nasceu e 
mora em São Paulo. Nos últimos anos, tem se dedicado à poesia, 
além de escrever resenhas sobre literatura para jornais e revistas. 
Cursou o Clipe (Curso Livre de Preparação do Escritor), na Casa das 
Rosas, e oficinas de poesia com Angélica Freitas, Tarso de Melo, Is- 
mar Tirelli Neto, entre outros poetas brasileiros. Coração Cansado, 
editora Penalux, é seu primeiro livro de poemas. 





54 


MAPA MON 


Daiana Moura 


Eu adoro olhar 

E ver a costa do Brasil 

Se entregando na cama do mar 
Para o colo da África 

Fecho o olho e imagino 

O abraço de África 

Cobrindo a costa brasileira do mais 
Rico e ético e idílico amor 

as duas de conchinhas 
repousando serenas 

sem sombra de rancor 


As placas todas tremelicando 

As ondas nos aproximando 
Fronteiras frágeis caindo 

Com o rugido do bravio terremoto 
do maremoto 

do tsunami 

O caos instalado 

Com tantos abraços dados 

E a terna America 

Se amando e gemendo Calorosos brados 
Ecoando pelo mundo 

Como que dizendo: 

somos o sul 


O mais miserável 

Dentre os miseráveis mundos 
Que há dentro do mundo 
Mas neste planisfério azul 
Não há mais calor e mais amor 
que abaixo de nossas nuvens 
e sobre nossa terra quente 

e grávida sempre 

Solo louco e profundo 

tão cheio de muros e dentes 
de facas e foices 

que entalam e sufocam 

os exauridos viventes 


Também divago na transa 

sutil e mansa 

leve 

vagaroso e gostoso amar 

Que o Panamá faz quando encosta na Colômbia 
Bela imagem 

E é nessa ponta 

Que mora a ponte 

Central com a Sul 

e se tocando 

irradiam linhas invisíveis 

brilhos intensos 

Cheiros, sabores, sementes e cores 
Correndo como 

o iluminado sangue 

que a vida do corpo-america fez. 


Medo, pena e certa angústia 
eu carrego 
com o corpo grande e pesado dos Eua 


55 


56 


segurando firme e rude 
todo o dorso do México 
E essa costa corpo-vivo 
berra e anseia 

novas páginas nos livros 
E daí para cima 

não tenho desejo 

Daí para cima o mundo 
parece o mais impiedoso 
cruel e vergonhoso 
Gelado polo 

dos relacionamentos abusivos 


De mais a mais 

O que realmente me enche 
de somas e de sonhos 

é pensar em entrar 

bem rapidinho por Portugal 

- entendendo que tudo deles 
que há de belo lá 

Pertence a nós 

dos nossos avós daqui 


Dai caminhar pela Espanha 

Por que descendo 

tem o rumo mais certo 

A espanha dá um selinho em Marrocos 
E de lábios trêmulos e marejados olhos 
meus pés cruzam o mundo 

E voltam para a terra mãe 

são as cores, as tintas, Os gritos 

Os lenços esvoaçantes que me lembro 
sem nunca ter ido 

mas eu sei que é por ali 


que meu coração inicia 
novo bater 

descendo e auscultando 
Os velhos sempre novos 
tambores que guiam a vida 
Mesmo quando silenciam 
Murmuram em salamaleicos 
vibram em “uis” e “mercis” 
Porque toda gente 

Assim como toda terra 
sempre viva 

Sabe bem de onde 

Como 

E porque tudo começou 


É assim que eu 

danço os amores 

e os conflitos do mundo 
Pensando nos beijos e abraços 
No vibrar da minha terra 

Que aquece minh'alma 

Que alivia meu cansaço 

de tão árida 

nem deixa a lagrima cair no chão 
As águas que secam 

a meia face 

sabem que nem deveriam 

nem poderiam existir 

não haveria razão motivo ou circunstânciar 
na história que pudesse aceitar 
o meu lamento 

que é o lamento mesmo da terra 
da minha 

que é de todos 

que é passagem apenas 


57 


58 


e nada mais 


Olhando a bola 
-ainda que a desejem plana 

que num incessante girar sobre si mesma 

E por outros maiores espaços ganhar 

Quando penso nas porções de elemento 

terra que a terra tem 

Desejo estar lá 

E lá pisar 

e lá habitar 

nem que por instantes 

e sinto na densidade dela 

que ela sou eu 

e eu sou ela 

e que ela não me pertence 

como eu não pertenço a ninguém 
- sou também passagem 

Que permitam as deusas 

de todas essas terras 

que a Terra divinou para si 

que eu possa criar 

e adivinhar 

nela mesma o desenho 

dos meus pés 

deles dois, 

cheinhos de dedos 

E não dos sapatos 

Desenharei a pegada 

mais leve e mais grata 

mais terna e mais gentil 

em cada uma dessas porções 

de américas e áfricas 

que de ninguém são 

sendo de todos ao mesmo tempo 


só por ir 


só por estar nelas 
e assim em mim 


que me permitam 

essas mesmas deusas 

que eu nunca machuque 
que minha mão nunca em sangue 
de nenhum povo se suje 
que nenhuma ruindade 
minha cause maldar 

Que meu corpo e minha arte 
soprem semeares 

de risadas boas, amores críveis 
e profundos pensares 

sobre as dores 

para que possam cessar 

e sobre justiça que venha 
sem tanto tardar 

que de sonho em sonho 
meu eu se espalhe 

que meu leve pisar 

seja cura 

seja o elo que junta as peles 
para cicatrizar as feridas 

tão abertas 

tão grandes 

tão expostas e tão doídas 


Assim fazendo 
as deusas também permitirão 

- eu sei porque nós nos sabemos 
juntas que cada pedaço de terra 
que cada porção de chão 


59 


60 


conhecido ou não 

seja barro 

mole ou duro 

que num (n)ovo molde 
transforme e cole 

também (e com as graças delas) 
as feridas do meu coração 





Daia Moura é atriz, performer e arte- 
educadora. Mestra e doutoranda em 
educação pela UFScar-Sorocaba. Membro 
do NEGDS - Núcleo de Estudos de Gênero, 
Diferenças e Sexualidades da Ufscar e do 
projeto-coletivo Mulheres e Luta. Integra 
a Plataforma de Pesquisas Cunhãântã, o 
Coletivo Cênico Mulheres de Utopias e 
as Redes Feministas Interpretas e Mulher 
em Perspectiva. Viandante utópica que 
acredita no poder revolucionário da arte 
e do amor. 





62 


COLETIVA 


A coletiva “baRRósas” foi criada 
por moradoras do Barroso, um bairro 
periférico da cidade Fortaleza - CE. 
A proposta da coletiva surgiu após a 
segunda edição do “Slam Violeta”, 
batalha de poesia do Conjunto Violeta, 
localizado ao lado do Barroso; no qual 
não havia participação feminina, embora 
este fosse seu maior público. Neste 
contexto, decidimos criar um sarau no 
bairro Barroso realizado apenas por e 
para mulheres. Mas, diante da pandemia 
(Covid-19), a ideia de realizar o sarauteve 
que ficar em segundo plano, surgindo, 
então, a proposta de criar uma página na 
plataforma Instagram, a qual demos o 
nome de “baRRósas”, um trocadilho que 
representa Barroso no feminino. A nossa 
coletiva, atualmente, é composta por 11 
mulheres e tem como objetivo principal 
trazer visibilidade para a(s) literatura(s) 
feita(s) por mulheres e incentivar/valorizar 
o processo de escrita, principalmente, 
das mulheres que moram nas periferias. 


BARRÓSAS 


A“baRRósas” é uma coletiva autônoma, 
que (re) existe possibilitando momentos 
de união e de fortalecimento para 
todas nós que compomos a coletiva, 
além de também buscar possibilitar 
espaços de liberdade e esperança para 
outras mulheres. Agenciamos, assim, 
vivências que buscam contribuir, 
cada vez mais, no que diz respeito, 
principalmente, ao enfrentamento de 
problemáticas estruturais que perpassam 
nossas realidades, como o machismo, 
o racismo, a transfobia, entre outras. 
Problemáticas estas que perpassam os 
espaços, inclusive, artísticos, de nossas 
“quebradas” com muita intensidade. 


63 


A AT 
E = mn | 





Imagem: acervo da Coletiva. 
Na Foto (atrás) da direita para esquerda: Lais Futália (Ig: (Dlais.eutalia), Bruna 
Sonast (Ig: (mbsonast.), Anna Silva (Ig: (mthisartstudio), Fernanda Teixeira 
(Ig: (Dnandadango), Éder Abner (da Biblioteca Viva Barroso), Lúcia Viana 
(Ig: (Dflor indefinida), Raphael Montag (da Biblioteca Viva Barroso). Na 
frente: Gessica Gomes (Ig: (Dmagazzart), Hevila Coelho (Ig: (Dhevilacoelho) 
e Karyla Freitas (Ig: (Dkaryla.freitas). 


PO QUERTASESCREVER 
SRB E A GUERRA INTERNA 


lais Futália 


sobre a batalha diária pra conseguir o pão 
mesmo esse pão sendo amassado 
nas minhas costas 


e o diabo nem tem nada com isso 


queria falar sobre a guerra travada 
esquina versus outra rua 
em que os integrantes desses exércitos 


nem sabem o motivo da matança anunciada 


tô muito cansada pra falar sobre isso 
só quero botar as pernas cima 


y 
fumar meu cigarrinho pra esquecer dos b.o. 


mas, essa semana 
uma mãe não pôde velar seu filho 


e eu chorei 


ontem eu li uma puta poeta da cidade 


que falava sobre guerra e cotidiano 


falava sobre conseguir o pão e proteção 


mas só consigo pensar no cuidado e medo 


de ver os meus ao chão 


ontem avisei uma conhecida querida 
para sair da rua 


porque a coisa não tá brincadeira 


e hoje eu bebo minha gelada 
e peço que as espumas do mar e da cerveja 
nos banhem de proteção 


e que bebamos intuição 


proteção, proteção! 


Lais Eutália é historiadora em formação pela universidade 
federal do ceará. escritora, professora, poeta e dentre todas as 
coisas - vivedora. filha dos céus e mares, ama os ventos de 
agosto e tem mão boa para plantas. lança seus escritos na (&) 
escritasvulcanicas e publicou antologia “amor nos tempos de 
lonjura” pela mira da janela”). 





Lúcia Viana 


O quarto... Houve um tempo que 
eu não podia sair do quarto. O que é 
bem lamentável, pois me fazia sempre 
dentro dele: meu pequeno mundo, uma 
prisão covarde. Hoje, corro mundo 
a fora, quebrei as paredes do quarto, 
derrubei, para nunca mais levantá-las. 
E nesse desespero de querer viver, 
correr rumo ao tempo perdido, sair 
do espaço apertado, meu eu se fundiu 
com o mundo, e as quatro paredes são a 






E RR A 


minha fobia. Me dói no peito lembrar 
dessa dor, de tirar o batom da boca e de 
tirar os brincos com medo de ser vista... 
Limpar os lábios com tanta força que 
sangrava. Não tem água que tire a minha 
maquiagem e não tem paredes que me 
façam parar mais. 


E do quarto, só me resta a lembrança 
amarga. 


Lúcia Viana - “Me chamo Lúcia Castelo Viana, escritora, 

poetisa e fotógrafa. Estudante de Letras português francês na 
4 UECE, escrevo há 15 anos. Sou transativista, sou participante 
))-— - da baRRósas, desde seu princípio. Como costumo dizer, sou 
uma mulher perdida em um corpo qualquer” 


Bruna tonast 


à Carolina, 


dizia não saber escrever poemas sociais, sabe?, engajados... mas, as vezes, 
dessas vezes que são muitas vezes, pensava se existia isso de poema desengajado, 
sem socializar nada, como se fosse cada um de nós um ser isolado de qualquer coisa 
outra que nos rodeia, feito quatro paredes de um muro de Berlim esquizofrênico. 


e eu nunca soube o que era a fome, tão farta de afetos e de comida, olhando 
o amor com olhos fáceis e a comida como regra, nunca exceção; mas, excedendo 
tudo, assim, e sempre assustada com a violência da insensibilidade. 


dizia não saber escrever poemas sociais e engajados, para além das gavetas 
e das ausências, como se existisse isso de desengajamento antissocial: existe? é 
de comer? faz chorar? 


é que eu sempre achei que o amor fácil e a consciência de assumir todos os 
atos, em especial as palavras, me redimia das regalias que quase sempre ainda tive, 
e, no fim, acho que meu ato mais honesto foi apenas o de ser mulher... 


nunca soube da fome, que transforma os olhos e decepa as palavras, mas, te 
escrevo um poema, assim, para que resistir seja não deixar de sonhar... sonhando 
(n)a tua poesia... 


e eu queria tanto adentrar teu quarto mais mulher, mais forte... (a)colher cada 
um dos teus papéis... 


para que talvez assim, talvez só assim, fosse eu gente melhor. 


Bruna Sonast, estudante da e pela linguagem-vida, me (des) 
(re)faço poeta, escritora independente; tendo lançado de forma 
independente meu primeiro livro de poemas “vestígios”, em 
2020. fiz graduação em letras português e mestrado em linguística 
aplicada, na uece. componho a coletiva “baRRósas” e as “escritas 
vulcânicas. 





67 








70 


TRANSFOBIA 


RECREATIVA 


A CONSTRUÇÃO DO EIGAR 


DAS TRAVESTIS 


NO IMAC RNAR TIO 


PA SOCTEDADE” BRASTEETDA 
ATRAVÉS DO HUMOR 


Elisha Silva de Jesus 


Estereótipos raciais e de gênero 
permeiam a forma como são represen- 
tadas as mulheres trans [1], no Brasil. 
Comumente são retratadas nas mídias 
enquanto caricaturas engraçadas, exage- 
radas, cômicas e que fazem as pessoas 
rir ou são retratadas como personagens 
controversos, ambíguos os quais tendem 
a enganar as pessoas nas estórias. Por 
décadas ainda somos vistas como mar- 
ginais, bandidas, prostitutas e perigosas, 
principalmente na figura da travesti, re- 
tratada dessa forma em mais de 80% dos 
noticiários sobre assassinatos e crimes, 
nas mídias, jornais, revistas e programas 
televisivos informativos [2]. É corriquei- 
ro a propagação de programas humoris- 
ticos que retratam as travestis através 
de estereótipos negativos, banalmente 
relacionadas à prostituição e a fraude 


da imagem das mulheres cisgênero [1] 
para conseguir homens cis. Nas relações 
sociais, costumeiramente mulheres cis- 
gênero se sentem ofendidas ao serem 
comparadas com as mulheres trans, o 
que na maioria das vezes é reproduzido 
em tom jocoso, pejorativo e com o intui- 
to de gerar satisfação cômica por meio 
de piadas. Até mesmo dentro da comu- 
nidade trans, mulheres trans negras são 
ridicularizadas por causa de seus traços 
fenotípicos, como formato do nariz e o 
cabelo crespo, lidas como inferiores na 
margem das margens. 


São inúmeras situações vexató- 
rias, constrangedoras e cômicas onde 
nós mulheres trans, sobretudo negras 
somos vistas, na fronteira entre os gê- 
neros ou colocadas como personagens 
engraçados e traiçoeiros. Não é a toa que 


na última década as mudanças sentidas 
por este segmento da população perpas- 
sa a cultura. Ganhamos um pouquinho a 
mais de espaço nos programas, novelas, 
séries e minisséries. Estes programas 
tentam, ainda que de forma tímida, cons- 
truir um novo imaginário do que seja a 
transexualidade pela figura transgêne- 
ro. Contudo, muitos destes programas 
reproduzam uma imagem patologiza- 
da de que vivemos no corpo errado ou 
existimos para gerar entretenimento ou 
ainda nos retratam pelo viés da dor e 
do sofrimento. A minha proposta neste 
artigo é refletir sobre a transfobia recre- 
ativa, OU seja, a maneira através da qual 
a imagem da mulher trans é construída 
por meio de piadas, situações vexatórias 
e do humor na construção de noções so- 
ciais associadas a inferioridade de nos- 
sos traços fenotípicos e estéticos, o que 
consequentemente inscreve nosso lugar 
na sociedade. 


Proponho a reflexão a partir do li- 
vro “Racismo Recreativo”, escrito pelo 
Adilson Moreira [3]. Em poucas pala- 
vras, O autor argumenta que o humor é o 
modo através do qual são inscritos este- 
reótipos morais e materialmente degra- 
dantes sobre o povo negro no imaginário 
social, o que consequentemente perpetua 
relações de poder e o lugar social destas 
pessoas. Nem todo humor é racista, mas 
o humor racista tem como objetivo gerar 
determinado sentimento de superiori- 
dade racial através da satisfação psico- 


lógica das pessoas que o reproduzem. 
Através da psicologia social do humor, 
o autor destrincha a construção dos este- 
reótipos racistas direcionados a homens, 
mulheres homossexuais negros. O autor 
tem um capítulo para falar sobre o este- 
reótipo da bicha preta, tomando o caso 
do personagem Vera Verão, vivido por 
Jorge Lafon. 


Ainda que Adilson não fale espe- 
cificamente de pessoas transgênero, as 
ideias contidas em seu livro sobre os pro- 
jetos de racialização, conceitos de micro- 
agressões, psicologia social dos estere- 
Ótipos e dos estigmas, psicologia social 
do humor e racismo recreativo podem 
ser usadas para reflexão acerca da forma 
como o humor é usado para legitimar 
relações de poder e consequentemente 
justificar o lugar historicamente ocupado 
por determinados grupos sociais. Ade- 
mais, a violência cometida contra tra- 
vestis e transexuais negras corresponde 
a mais de 70% dos dados estatísticos [2], 
o que evoca a necessidade de olhares in- 
terseccionais [4] e [5]. A indissociabili- 
dade dos marcadores da diferença, como 
racismo e transfobia, permite a reflexão 
sobre como essas opressões tornam a 
vida de travestis negras vulneráveis num 
contexto dentro do qual o Brasil tende 
a negar tanto a existência do racismo, 
quanto da transfobia por meio do mito 
da democracia racial e da igualdade de 
oportunidades e direitos. 


71 


72 


HUMOR E REPRESENTAÇÃO 
SOCIAL 


O humor pode ser compreendido 
como resultado de comunicação ou ação 
através da qual se induz uma pessoa ao 
riso, devido a natureza jocosa, estranha 
ou inesperada. Essa ação ou comunica- 
ção pode ser verbalizada, expressa por 
meio de gestos ou atos visuais capaz de 
gerar uma reação emocional desde um 
simples riso até gargalhadas. Por mais 
que pessoas possam rir sozinhas, o hu- 
mor está atrelado ao contexto cultural 
onde ocorre, porque está relacionado 
ao fato de que o encontro entre mais 
pessoas pode ser uma fonte de prazer. 
O humor pode tornar as relações huma- 
nas mais agradáveis, na medida em que 
permite as pessoas interagir de modo 
informal. De modo criativo, o humor 
envolve o processamento de estímulos 
de mecanismos mentais na evocação de 
memória, jogo com palavras, ideias e 
simbolos. Além disso, o humor produz 
reações emocionais, através do estímulo 
de prazer proporcionado pelo momento 
cômico, proporcionando momentos de 
prazer, relaxar do corpo e da mente pelo 
momento de interação social. É uma for- 
ma de relaxar das tensões e adversidades 
sociais provocadas por uma sociedade 
estressante, racista, transfóbica e ma- 
chista, o que muitas leva certos grupos 


minoritários a satirizar sua própria con- 
dição [4]. 


Então, o humor está relacionado 
com as informações a serem processa- 
das, geralmente decorre da comparação 
entre grupos sociais e raciais, através da 
qual grupos sócio raciais podem se sentir 
superiores. Adilson Moreira discorre so- 
bre as teorias do humor, dentre as quais 
a teoria da superioridade pressupões 
que o humor foi desenvolvido desde os 
tempos clássicos ocidentais como uma 
maneira de diferenciação entre os grupos 
dominantes e inferiores, marcando seu 
lugar e status na sociedade, satirizando 
a condição dos inferiorizados. As teorias 
psicanalíticas sugerem que o psiquismo, 
através do humor, produz uma descarre- 
ga de energia mental por meio do caráter 
cômico de uma frase, história ou gestos, 
com o intuito de gerar uma satisfação 
psíquica [3]. 


Diante disso, o racismo e a trans- 
fobia por meio do humor reproduzem 
estereótipos negativos, o que gera a con- 
cepção de que membros desses grupos 
possuem defeitos morais, por isso sem- 
pre estão envolvidos em situações ridi- 
culas e degradantes no contexto criado 
pela história humorística. Isso reforça a 
noção social de que estes defeitos morais 
seriam inatos, devido à associação com 
traços fenotípicos. O humor transfóbi- 
co e racista causa danos psicológicos 
e sociais nas vítimas desse tipo de mi- 


croagressão, degradando-as moralmente 
e materialmente devido às percepções 
negativas construídas sobre a imagem 
delas. Estas manifestações estão relacio- 
nadas ao contexto social na qual ocor- 
rem. O humor racista e transfóbico existe 
estrategicamente coma finalidade de per- 
petuação dos estereótipos responsáveis 
pela marginalização material e moral dos 
grupos minoritários e as piadas tem sido 
usadas como forma de legitimidade des- 
te lugar social. A transfobia recreativa e 
racista cria uma sensação de satisfação 
psicológica nas pessoas que se sentem 
superiores, o que cria uma certa noção 
de solidariedade entre os grupos cultural 
e político dominantes, ajudando a selar o 
pacto narcísico da branquitude [6] e do 
lugar social das pessoas cisgênero em 
detrimento da população trans. 


Transfobia e racismo recreativos 
são práticas culturais legitimadas por 
quem está socialmente autorizado a 
construir sentidos e significados cultu- 
rais e atribuir-lhes aos grupos minoritá- 
rios alvo deste humor. A seguir estão al- 
guns exemplos de como o humor racista 
e transfóbico é propagado nas mídias, 
como televisão e canais no youtube. 


Certos programas humorísticos 
usam imagens de pessoas negras e trans 
em situação humilhantes e degradantes 
para gerar situações cômicas, engraça- 
das e vexatórias. Em tom jocoso, ato- 
res caracterizados em blackface [7] e 


transfake [8] criam personagens estere- 
otipados, com uso de tintas para repre- 
sentar a pele negra, narizes grandes e 
lábios imensos para criar personagens 
moralmente rebaixados e culturalmen- 
te inferiores, com o intuito de fazer as 
pessoas rirem da situação. Em relação 
às pessoas trans, geralmente homens cis 
usam vestidos, brincos e maquiagem para 
representar personagens exagerados. 
Alguns programas pagam para mulheres 
trans aturem em situação humilhantes 
pelo fato de serem trans, aproveitando-se 
de sua vulnerabilidade social pela falta 
de empregabilidade. 


Existe um programa onde o teles- 
pectador é convidado a “descobrir”, en- 
tre as mulheres disponíveis, todas bran- 
cas, quem é a transex. Então, elas posam 
em trajes de banho e até ficam nuas sob 
o véu transparente de tecidos de modo e 
estimular a criatividade do telespectador. 
Em outro programa, homens na praia são 
convidados a passar protetor solar em 
mulheres, todas brancas, e depois são 
“surpreendidos” com a notícia de que 
se trata de uma mulher trans. Em outros 
episódios deste programa de humor, ho- 
mens são atraídos por uma proposta de 
assistir gratuitamente cenas de strippers, 
mas deixam o estabelecimento de forma 
agressiva ao se deparar com transexu- 
ais. Em outro programa humorístico, um 
homem cis realiza blackface de forma 
que os traços fenotípicos de uma pessoa 
negra são exagerados (nariz largo, lábios 


73 


74 


grossos e rosa) e transfake para dar vida 
a uma personagem travesti pedinte no 
metrô. 


Ao utilizar do estereótipo da mu- 
lher branca, loira, esbelta e curvilínea, 
homens cis são atraídos para “se apro- 
veitar” delas ou então brincam com o 
imaginário dos homens acerca dos traços 
fenotípicos dessas mulheres e que pos- 
sam atraí-los. O humor está justamente 
imbricado na descoberta de que se tra- 
tam de mulheres trans, o que leva os 
homens ao constrangimento. Além de 
propagar o estereótipo de que mulheres 
trans são fraude, ainda corroboram com 
o estereótipo de atração sexual a partir 
da exaltação de atributos da feminilidade 
branca. Se as mulheres fossem trocadas 
por mulheres negras, o humor não teria 
graça, porque justamente brinca com 
aquilo considerado esteticamente atra- 
tivo. Além disso a transfobia recreati- 
va atinge indiretamente as pessoas que 
se sentem atraídas por mulheres trans e 
travestis, na medida em que humilham 
e envergonham essas pessoas por meio 
de piadas. 


Em outro programa, intitulado qua- 
dro da verdade, a busca incessante por 
audiência leva à “revelação bombástica” 
de que um homem cis casado com uma 
mulher cis, sente atração por mulheres 
trans. Em outro quadro de piadas, uma 
atriz branca, magra e loira, oferece a ven- 
da de fotos íntimas em troca de dinheiro. 


Após seduzir os rapazes, os quais pagam 
pelas fotos, ela mostra imagens íntimas 
de mulheres trans não redesignadas, o 
que leva os homens a se sentir ofendi- 
dos e agressivos. Em outro episódio, ho- 
mens cis são “humilhados” ao descobrir 
que as mulheres que eles paqueraram 
na balada, são trans. Em outro quadro, 
homens são atraídos pela voz de mulhe- 
res e reagem agressivamente ao notar 
que se tratam de mulheres trans. São 
incansáveis as modalidades existentes 
para colocar mulheres trans em situações 
vexatórias, degradantes e humilhantes. 
Nestes programas, nota-se que o humor 
está atrelado à “revelação” da identida- 
de das atrizes, sempre utilizando-se do 
estereótipo de beleza branco ocidental 
para “confundir” as “vítimas”. O racis- 
mo aqui é velado, ao atribuir somente 
às mulheres brancas noções atreladas 
ao desejo e à atração (mas, qual mulher 
negra gostaria de ser colocada nessa si- 
tuação vexatória, não é mesmo?) Em 
novelas, filmes e peças de teatro também 
são utilizados estereótipos relacionados 
ao exagero e à hipersexualização para 
retratar personsagens trans a partir do 
transfake. 


Isso cria uma noção distorcida de 
que mulheres trans seriam homens tra- 
vestidos de mulher. Inclusive, o termo 
travesti foi totalmente ressignificado. 
Primeiramente usado durante a colo- 
nização para criminalizar a existência 
de travestis traficadas de África para o 


Brasil, jesuítas proibiram que homens 
se vestissem de mulher, dai a ideia de 
travestismo e assim ficaram conhecidas 
as pessoas que transgrediam as normas 
de gênero: travestis [9]. Termo ressigni- 
ficado e hoje politicamente reivindicado 
como pertencente ao gênero feminino 
enquanto identidade. A luta contra o 
transfake ganhou força na última década 
graças a luta dos movimentos sociais e 
a propagação das informações via redes 
sociais. Ainda assim, houve resistência, 
ao argumentarem que não existem pes- 
soas trans qualificadas para os papeis, 
explicitamente uma justificativa trans- 
fóbica através de microagressão (apro- 
fundado mais adiante) dirigida a este 
segmento da população [8]. 


Os programas televisivos e demais 
programas veiculados online, propagam 
uma representação social daquilo que é 
considerado verdadeiro e falso em ter- 
mos de identidade de gênero. As mulhe- 
res cis são colocadas enquanto verda- 
de sobre o ser mulher, ao passo que as 
mulheres trans e travestis são colocadas 
na categoria do falso, da fraude. Além 
disso, mulheres trans são sempre hiper 
sexualizadas e seus traços fenotípicos e 
sociais são exagerados. Seja por meio 
dos programas, novelas, filmes e mi- 
nisséries com intuito recreativos ou por 
meio da divulgação nos boletins infor- 
mativos do nome de registro de travestis 
e mulheres trans assassinadas. Quando a 
travesti é negra, tende a aparecer 8x mais 


na mídia enquanto criminosa ou prosti- 
tua assassinada, ao passo que travestis 
brancas são comumente representadas 
como mulheres trans no entretenimento. 
O que denota o lugar da travesti branca e 
da negra ao mesmo tempo que reforça o 
entendimento higienista do termo trans. 


RACISMO, RACIALIZAÇÃO, 
TRANSFOBIA E AS 
MICROAGRESSÕES 


O racismo pode ser compreendido 
como a hierarquização de um grupo de 
pessoas brancas sobre grupos de pessoas 
negras através de séculos de opressão. 
A racialização é usada para classificar 
o modo pelo qual sentidos culturais são 
atrelados a determinadas característi- 
cas físicas para que um grupo seja vis- 
to como diferente, em termos raciais. 
No contexto pós colonial, a dominação 
branca ocidental precisava justificar não 
apenas as atrocidades dos séculos ante- 
riores, como também precisava justificar 
a continuidade da inferioridade dos ne- 
gros na nova ordem mundial capitalista. 
O uso da ciência, da política e da cultura 
foram fundamentais para esse processo 
[3]. 

A racialização é a maneira través 
da qual são construídos significados aos 
corpos pretos, atribuindo-lhes diferen- 
ciação a partir dos atributos fenotípicos, 
com objetivo específico: marcar as re- 


75 


76 


presentações sobre poder na sociedade. 
Existe um sistema que atribui sentidos 
aos traços fenotípicos de alguém para 
que a dominação de um grupo sobre o 
outro possa ser legitimada: 


“Assim, devemos entender a raça 
como projetos de dominação, base- 
ados na hierarquização entre grupos 
com características físicas distintas. 
Ao se construir minorias raciais como 
grupos com traços morais específicos, 
membros do grupo racial dominante 
podem justificar um sistema de domi- 
nação que procura garantir a perma- 
nência de oportunidades sociais em 
suas mãos” (MOREIRA, 2019 página 
41). 


Neste sentido a branquitude consti- 
tui-se historicamente como hegemônica, 
ou seja, sua cultura, religião, sistema 
econômico, sexualidade, traços estéti- 
cos, estrutura política e a tradição cul- 
tural se tornaram parâmetros universais. 
Isso aconteceu e acontece até hoje por 
causa da inferiorização da negritude em 
todos os aspectos supracitados. Quando 
digo universais, isso significa que a bran- 
quitude é alocada como representação 
máxima do que é considerado humano 
belo, moralmente aceito e sexualmente 
saudável, o que situa as pessoas brancas 
num lugar específico dentro das hierar- 
quias sociais em função do significa- 
do que pertencer ao grupo dominante 
possui no mundo contemporâneo. Este 


sistema de dominação permite que as 
oportunidades sociais estejam voltadas 
aos brancos. 


A construção dessa hegemonia pas- 
sa obrigatoriamente pela deslegitimação 
e inferiorização das pessoas negras atra- 
vés da produção de diversas narrativas 
científicas, políticas e culturais destina- 
das a legitimar a exploração econômica 
de pessoas classificadas como negras. 
Então, o racismo é o centro norteador 
de práticas de atribuição da imagem cul- 
tural inferior dos negros para justificar 
a superioridade branca. Dessa forma a 
construção das identidades oposicionais 
racializam grupos sociais de formas dis- 
tintas em função das relações de poder 
que pode ser exercidas nas dimensões 
culturais, políticas e econômicas histo- 
ricamente construídas. 


Neste sentido, a aversão diz respei- 
to aquelas pessoas explicitamente pre- 
conceituosas: racistas e transfóbicas, as 
quais não se relacionam e evitam estar 
próximas de pessoas negras e trans. No 
plano simbólico pessoas racistas e trans- 
fóbicas tendem a desvalorizar aspectos 
culturais relacionados às pessoas pretas 
e trans, não consumindo sua arte, a me- 
nos que seja para fazê-las rir. No plano 
institucional, atos praticados por repre- 
sentantes de instituições públicas e pri- 
vadas, implícita ou explicitamente, po- 
dem prejudicar os grupos historicamente 
marginalizados. Por exemplo, quando o 


presidente da república nega a existência 
do racismo, quando casas legislativas 
criaram leis contra trans nos esportes e 
contra o uso de banheiros públicos[3]. 


O psiquiatra norte americano Ches- 
ter Pierce classificou as microagressões 
como uma faceta do racismo na criação 
de imagens deturpadas de pessoas ne- 
gras o que consequentemente gera “com- 
portamentos conscientes e inconscientes 
que expressam de maneira sutil despre- 
zo por minoriais sociais” (MOREIRA, 
2019 página 52). Essas microagressões 
são expressam em três tipos principais: 
microassaltos, microinsultos e microin- 
validações. 


Os microassaltos dizem respeito aos 
atos que expressam desprezo ou agressi- 
vidade de uma pessoa em relação a outra 
por causa de seu pertencimento social. 
Essas expressões podem ser verbaliza- 
das ou por meio de comportamentos que 
denotem diferença de valor entre as pes- 
soas, geralmente propositais através da 
expressão de estereótipos negativos em 
relação ao outro. Trata-se do cotidiano, 
quando não se é cordial com pessoas de 
determinados grupos sociais, evita-se 
estar próxima delas e dispensam a pes- 
soa de estar no mesmo grupo. Exemplos 
supracitados são o blackface e o trans- 
fake no sentido de que pessoas pretas e 
trans são profissionalmente excluídas 
dos processos de criação e veiculação 


do entretenimento, mesmo que o tema 
dos trabalhos sejam suas próprias vidas. 


Os microinsultos dizem respeito 
ao modo com a comunicação exerce a 
expressão ou “encoberta ausência de 
sensibilidade à experiência à tradição 
ou à identidade cultural de uma pessoa 
ou grupo de pessoas” (MOREIRA, 2019 
página 53). Exemplo disso são mulheres 
que odeiam ser comparadas às travestis 
ou que são ridicularizadas por se pare- 
cerem com travestis, uso de estereótipos 
femininos para se “fantasiar de traves- 
ti”, debochar de cabelos crespos, traços 
negros fenotípicos e traços fenotípicos 
de mulheres trans, como ombros largos, 
ausência de quadris, entre outras formas 
de microinsultos. Até mesmo quando 
historicamente dizem que não existimos 
ou que somos uma fraude. Há quem diga 
que a transexualidade nunca existiu em 
África e em outros continente e que isso 
seria uma invenção moderna, quando 
na verdade, enquanto seres humanos, 
estamos neste planeta há milênios. 


Por fim, as microinvalidações acon- 
tecem quando as experiências, pensa- 
mentos e interesses de pessoas de grupos 
sociais marginalizados são caracteriza- 
dos como irrelevantes pelas pessoas per- 
tencentes aos grupos sociais e raciais 
dominantes. Muito comum são os casos 
onde pessoas negras, homossexuais, tra- 
vestis e mulheres contam experiências 
de discriminação, mas são invalidadas 


77 


78 


com expressões do tipo “não é bem 
assim”, “você exagerou”, “isso não é 
preconceito” ou não são sequer somos 
ouvidas. 


CONCLUSÃO 


Diante do exposto, o racismo e a 
transfobia podem ser compreendidos 
através das formas sutis como são ex- 
pressadas na sociedade, através das mi- 
croagressões, instituídas como formas 
sutis de demarcação do lugar social que 
pode ser ocupado por estes segmentos 
da população. Os microassaltos roubam 
nossos trabalhos, as microinvalidações 
perpetuam o epistemicídio e depreciam 
nossa intelectualidade, as microinvalida- 
ções desumanizam nossas experiências 
de vida. 


Enquanto crime, expressões racis- 
tas explícitas tendem a gerar incômodo 
nas pessoas, no entanto as microagres- 
sões tendem a ser comum, porque de 
forma implícita expressa-se determina- 
do sentimento de superioridade de um 
grupo social para com outro [3], seja 
de pessoas brancas para com pessoas 
pretas, heterossexuais para com homos- 
sexuais, pessoas cisgênero contra pes- 
soas transgênero e outras formas duais 
de construção das diferenças, as quais 
podem estar intercruzadas, o que coloca 
travestis negras enquanto grupos atingi- 
dos por múltiplas microagressões. 


A análise da transfobia recreativa 
no Brasil demonstra que muitos igno- 
ram a existência desta prática social en- 
quanto crime contra a vida de travestis, 
transexuais e demais pessoas trans. Al- 
guns compreendem a transfobia recre- 
ativa enquanto humor e reagir contra 
isso seria exagero (microinvalidação). A 
transfobia recreativa reforça a ideia de 
que comportamos imorais relacionados a 
enganação, criminalidade, prostituição e 
hiper sexualização estariam inscritos nos 
traços travestis e mais ainda nas traves- 
tis negras, na sua qualidade biológica, 
portanto imutável. Isso automaticamente 
inscreve uma relação direta entre carac- 
terísticas fenotípicas e a qualidade moral 
das pessoas trans e negras. Quando uma 
de nós reage à transfobia somos lidas 
como violentas e toda a comunidade é 
estigmatizada. É violento quem inaugura 
a violência, como diria Paulo Freire, não 
quem reage a este ato incitado por ou- 
trem. Recentemente o judiciário brasilei- 
ro passou a enquadrar a transfobia como 
crime de racismo, o que por vezes pode 
ser visto como injúria racial, ou seja, um 
ato de natureza pejorativa individual e 
pontual dirigido a uma pessoa trans por 
meio de palavras e gestos que levem ao 
dano moral. Transfobias simbólicas e 
institucionais ainda estão longe de serem 
vistas como uma ameaça à cidadania e 
à democracia. 


São inúmeras maneiras de conside- 
rar o significa da transfobia, ainda mais 


num país cujo legislativo sequer esta- 
beleceu legislação sobre o tema, apro- 
ximando-a apenas de um crime já exis- 
tente, como mais uma gambiarra jurídica 
sobre a vida das pessoas trans no geral, 
através de ações diretas de inconstitucio- 
nalidades do Supremo Tribunal Federal. 
A transfobia é institucional. 


Segundos os dossiês elaborados 
pela Associação Nacional de Travestis 
e Transexuais — ANTRA (2017, 2018, 
2019, 2020) mais de 90% dos assassi- 
natos de pessoas trans não são solucio- 
nados e quando são registrados casos 
de violência a maioria é arquivada. A 
grande maioria das pessoas trans não 
concluíram o ensino fundamental, prin- 
cipalmente negras e pobres. 13 anos é 
a idade média com que são expulsas 
de casa, o que as coloca numa situação 
de extrema vulnerabilidade, onde 90% 
acaba cooptada pelas redes de tráfico de 
pessoas, exploração sexual e uso de dro- 
gas. Após duas décadas de depreciação 
de sua saúde mental e marginalização 
de suas vidas, 35 anos é a média de vida 
dessas pessoas, sobretudo travestis ne- 
gras e pobres. O padrão de feminilidade 
vigente ainda fazem que elas recorrem 
a procedimentos estéticos insalubres, 
como uso de silicone industrial. 


Para além destas estatísticas terri- 
veis, este texto teve como objetivo ques- 
tionar quais são as formas com que pes- 
soas cisgênero reproduzem a exclusão 


social das mulheres trans? E qual a rela- 
ção entre o lugar social destas mulheres 
e as piadas, chacotas, humor televisivo 
com uso da imagem de travestis, consu- 
midos cotidianamente? Você mulher, em 
qual mulher você se reconhece? Quais 
são seus parâmetros de humanidade, be- 
leza, moral, ética? Você se reconhece no 
corpo de uma travesti? 


REFERÊNCIAS 


[1] VERGUEIRO, 2016.VERGUEIRO, V. Pensando 
a cisgeneridade como crítica decolonial. In: 
MESSEDER,sS., CASTRO, M.G., and MOUTINHO, 
L., orgs. Enlaçando sexualidades: uma tessitura 
interdisciplinar no reino das sexualidades e das 
relações de gênero [online]. Salvador: EDUFBA, 
2016, pp. 249-270. 


[2] ANTRA — Associação Nacional de Travestis 
e Transexuais. Dossiês e Mapas dos Assassinatos 
de Travestis e Transexuais. 2017. Disponível em: 
<https://antrabrasil.org/assassinatos/> Acessado em 
01/02/2021. 


2018. Disponível em: 
<https://antrabrasil.org/assassinatos/> Acessado 
em 01/02/2021. 


— 2019. Disponível em: 


<https://antrabrasil.org/assassinatos/> Acessado 


em 01/02/2021. 
— 2020. Disponível em: 


<https://antrabrasil.org/assassinatos/> Acessado 


em 01/02/2021. 


79 


80 


[3] MOREIRA, Adilson. Racismo Recreativo. São 
Paulo: Sueli Careiro; polén, 2019. 232. Feminismos 
Plurais. 


[4] Manifesto do Coletivo Combahee River. 
Traduzido por Stefania Pereira e Letícia Simões 
Gomes. PLURAL, Revista do Programa de Pós- 
Graduação em Sociologia da USP, São Paulo, v.26.1, 
2019, p.197-207. 


[5] CRENSHAW, Kimberlé. Tradução: mapeando as 
margens: interseccionalidade, políticas identitárias 
e violência contra mulheres de cor. In: Martins, 
A.C. ; VERAS, E.F. Corpos em aliança: diálogos 
interpretativos sobre gênero, raça e sexualidade. 
Curitiba: Appris, 2020. 


[6] BENTO, Maria Aparecida Silva. Pactos narcísicos 
no racismo: branquitude e poder nas organizações 
empresariais e no poder público. São Paulo, 2002 
169p. Tese (doutorado) Instituto de Psicologia da 
Universidade de São Paulo. 


[7] RIBEIRO, Djamila. “Mulher negra não é fantasia 
de carnaval?. Carta Capital, 2015. Disponível em 
<https://www.geledes.org.br/mulher-negra-nao-e- 
fantasia-de-carnaval/>. Acesado em 08/01/2021. 


[8] FAVERO & MARRACI, 2018. Transfake e a 
busca pela verdade na representação de travestis 
e pessoas trans. Revista brasileira de estudos da 
homocultura. Vol. 01, N. 04, Out. - Dez., 2018. 
Disponível em: <www.revistas.unilab.edu.br/index. 
php/rebeh> Acessado em 08/01/2021. 

[9] MOTT, Luiz. 
Homossexualidade no Atlântico Lusófono Negro”. 
Revista Afro-Ásia, no. 33 (2005): 9-33, acesso 
em <http://www.afroasia.ufba.br/pdf/afroasia33 . 
pp9 33 Mott.pdf.> 


“Raízes Históricas da 





Elisha Silva de Jesus, paulistana, 26 anos. 
Licenciada em Ciências Biológicas pela 
Universidade Federal de São Carlos - UFS- 
Car, campus Sorocaba e atual mestranda 
em Educação, Comunidades e Movimen- 
tos sociais no Programa de Pós Graduação 
em Educação - PPGEd, na mesma Univer- 
sidade. Sou pesquisadora no Núcleo de 
Estudos em Gênero, Diferenças e Sexua- 
lidades - NEGDS dessa mesma instituição 
e faço parte dos projetos de extensão: Fe- 
minismos, Sexualidade e Política - FSex- 
Pol; Combate à Pandemia: fabricação de 
álcool em gel para distribuição gratuita em 
hospitais e do grupo Mulheres e Luta. Na 
sociedade civil sou tesoureira na Associa- 
ção Transgênero de Sorocaba e sou con- 
selheira suplente no Conselho Municipal 
dos Direitos das Mulheres em Sorocaba. 
Estudo Educação, Direito ao Nome Social 
nas Escolas, Biologia, História e Memória 
de Mulheres Trans/Travestis Negras Bra- 
sileiras. 


SAUDADE 


Yvonne Miller 


Dá pra ter saudade de alguém que 
você não conhece? 


Não sou especialista em saudade, até 
porque na minha língua materna esse 
conceito não existe. Temos, isso sim, 
palavras com significados parecidos: 
Heimweh (saudade da terra natal ou de 
casa), Fernweh (saudade de estar longe, 
de viajar, de conhecer lugares novos), 
Sehnsucht (desejo doloroso de algo ou 
alguém). 

Eu nunca tive Heimweh, sempre tive 
Fernweh e vivia cheia de Sehnsucht da 
Larissa quando namorávamos a distân- 
cia. Mas saudade, saudade mesmo, no 
verdadeiro e brasileiro sentido da pala- 
vra, eu não sabia sentir. Aprendi isso há 
três anos. Faz três anos que uma saudade 
pontiaguda invadiu meu corpo e alma e 
nunca mais me abandonou. 

Logo eu, que sou difícil de lágrimas, 
chorei feito criança quando ouvi a noti- 
cia. Era 15 de março de 2018, um dia de- 


pois, eu estava tomando o café da manhã 
e ouvindo a Rádio Universitária e aí eu 
soube. Da Marielle. Do assassinato. Da 
sua família. Da dor. Da saudade. Saudade 
dela, deles, minha. Soube também, com 
o impacto que a dor e as lágrimas rom- 
peram minha paz, que a saudade nunca 
mais iria embora. Naquela manhã há três 
anos, eu não conseguia parar de chorar 
e choro até hoje nos dias 14 (e às vezes 
também nos outros). Quantos já passa- 
ram? 36 dias 14. 36 meses sem Marielle, 
156 semanas, 1095 dias. Três anos. 


Sim, dá pra ter saudade de alguém 
que você não conhece, do mesmo jeito 
que dá pra sonhar com um mundo di- 
ferente. Um mundo em que o amor, o 
respeito e a justiça social terão vencido 
o ódio, a intolerância e a desigualdade. 
Marielle lutava por esse mundo, com- 
partilhava esse sonho. 


Minha saudade dela é o luto do so- 
nho-mais-bonito interrompido. 


82 


Mas não se engane: Marielle não 
andava só. Eu também não estou só com 
minha saudade, ela é coletiva. Coletiva 
como o sonho de um mundo melhor, 
coletiva como a luta por justiça, coletiva 
como a primavera. Coletiva como Ma- 
rielle. Não vão nos calar. Avante! 





Yvonne Miller nasceu na cidade de Berlim 
em 1985, mas mora, namora e se demora 
no Nordeste do Brasil desde 2017. Escreve 
contos, crônicas e literatura infantil em 
alemão, espanhol e português. Tem textos 
publicados em coletâneas, como Paginário 
(Aliás Editora) e Histórias de uma quarentena 
(Expresso Poema Editora). É cronista do 
coletivo sócio-literário (Dbora cronicar e do 
blog Escritor Brasileiro. Além de ficcionista 
é autora e redatora de livros escolares. 
Instagram: (Dyvonnemiller escritora 


preta lésbica 
= papo reto, sorriso no 
", rosto, Marielle presente! 
E pra seinspirar , se 
|-mexêr / pra não esquecer 


Mulher 
eirante , | 
mulherão 

cercada de Rá 0º 
prédios em filos tudo 


acon str 


Fonte: https://ctb.org.br/ 


4 UNFESFNIA 





84 


* Conceição Evaristo, no livro Poemas da recordação e outros movimentos. Belo Horizon- 


te: Nandyala, 2008 


Eu fêmea-matriz. 
Eu força-motriz. 
Eu-mulher 

abrigo da semente 
moto-contínuo 

do mundo.” 


ANIS FAIR O EN SONHO CIPVV=ENOO 








BESLOCAMENTOS 


IMAGINÁRIOS, 2020 
MONTEVIDÉU, SRUGUAI 


Camila Fontenele 


Visito o mar anualmente, como quem retorna para casa depois de uma lon- 
ga viagem, como quem promete pra si próprio não se perder em terra firme. Um 
compromisso firmado para me lembrar daquilo que não lembro que fui, de um 
corpo-baleia, das minhas memórias que tem gosto de sal. 


Camila Fontenele, 1990, São Paulo. É artista visual, pesqui- 
sadora e, atualmente, assistente de curadoria da 3º edição de 
Frestas — Trienal de Artes “O rio é uma serpente” (2020/2021). 
Radicada na cidade de Sorocaba, mestranda no programa in- 
terdisciplinar de Estudos da Condição Humana na UFSCar e 
pós-graduada em Cinema, Vídeo e T'V: estética da imagem em 
movimento no Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. 
Suas investigações são atravessadas por questões como per- 
tencimento, o corpo gordo atrelado à imagem da baleia como 
fonte de cura e a possibilidade na criação de fugas e novas 
paisagens através dos processos de desaparição/aparição. Mais 
informações: www.camilafontenele.com e (Ig) (Dcamisfontenele 


























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Julia Dbupim 





Julia Pupim, 25 anos, nascida no interior de São Paulo. Cozinheira, uso a fotografia 
para externalizar minhas inquietações. Trabalho apenas com fotografia analógica, gos- 
to das experimentações que ela me proporciona e participo de todo o processo; revelo 
e digitalizo minhas fotos em casa, usando tecnicas alternativas. As fotos publicadas 
aqui fazem parte de um projeto, uma zine fotográfia chamada “Morro e não posso ve- 
lar o meu corpo”, onde conto um pouco sobre meu luto e a trajetória de adoecimento 
e morte de minha mãe. (Dn.anojnk 





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PARTICIPARAM DESTA EDIÇÃO 


Capa 


Águeda Amaral, fotógrafa, diretora e fundadora da Cabelo Duro 
Produções. Dirigiu: Na Cena do Samba - Noel Rosa, 2010, finalista 
na premiação da Revista BRAVO, Apuê, 2011 (Curta) na AIC - 
Academia Internacional de Cinema, Maria Maria, 2011 (Curta 
Metragem) — premiado em edital da TV Câmara e Música na Alma, 
2013 -2014, sobre a música de rua Cubana, com filmagens em Cuba 
e São Paulo. É co-produtora do longa, Hestórias da Psicanálise — 
Leitores de Freud, Dir. Francisco Capoulade, 2015, No Gargalo 


do Samba, 2017 - lançado na Rede EBC /'TV Brasil e em mais 16 países da América Latina 
Atualmente é co-produtora do documentário A Descoberta do Mundo, um filme sobre Clarice 
Lispector, dirigido por Taciana Oliveira. É produtora executiva da FILAFRO - Filarmônica 
Afro Brasileira em Espetáculos Nacionais e Internacionais. Site: www.cabeloduroproducoes. 
com 





Ilustrações 


Sofia Nabuco, 20 anos é ilustradora. Nasceu em São Paulo, mas 
“* mora na capital mineira há sete anos. Tem ilustrações publicadas 
m em revistas como OuroCanibal e Laudelinas. Em seu Instagram: (&) 
= * rabiscofia, posta ilustrações diárias e divulga seus outros trabalhos. 





Editoração 





Taciana Oliveira - Comunicóloga, roteirista atua em direção e 
produção cinematográfica, coordena e publica na plataforma di- 
gital Mirada — www.miradajanela.com . Dirigiu “A Descoberta 
do Mundo”, um documentário sobre Clarice Lispector. Tem no 
prelo Coisa Perdida, livro de poemas. 


Design Editorial 


Rebeca Gadelha é Otaku, Gamer, Artista Digital e Geógrafa. 
Tem um fraco por criaturinhas peludas e chá gelado. Participa 
da Plataforma Mirada como Designer Gráfico e curadora. 
Atualmente trabalha com edição de vídeo do projeto Literatura & 
LIBRAS (instagram (Dliteraturalibras), escreve no Medium sob o 
pseudônimo de Jaded. É autora de Reminiscências (Selo Mirada, 
2020), livro de memórias. IG: ()ohmybecka 


MIRADA